dois passarinhos

Dois passarinhos bicudos, cada um na sua, e os dois na mesma longuíssima árvore de longuíssimos galhos.

Um espreita de lá, outro de cá. Tentam chamar atenção, não sabem como. São dois passarinhos, afinal, muito parecidos em tudo: das garras às penas.

Eu também, quando menina, estudei num longuíssimo colégio de longuíssimas salas. As meninas, tais como os pássaros, eram diferentes entre si, mas se viam tão iguais que precisavam inventar competições bizarras entre si.

A febre da pasta de papeis de carta, com respectivos envelopes decorados, e os adesivos, os cobiçados e raríssimos adesivos, que brilhavam, brilhavam e não selavam carta nenhuma.

Para os dois passarinhos, papeis não faltaram. Nem computadores, telefones, pinicos, violas, rolos de macarrão. Os dois emplumados começaram a colecionar tudo que encontravam, dispondo objetos nos galhos longuíssimos, cada qual no seu lado da árvore longuíssima. Aos poucos o longo foi encurtando na cena de bugigangas.

“Eu tenho isso, nem sei para que serve, nunca usei, mas não importa”; diziam os bicudos. E a batalha continuava. Já nem se sabiam passarinhos, nem tinham mais árvore que os abrigasse.

Os dois passarinhos pelados de pouco viver, cheios de suas coisas inúteis.

Naquele colégio longuíssimo eu também tinha uma pasta cheia de papeis de carta, sem importados, nem adesivos. Eram papeis comuns, encontrados na loja de armarinhos que também era papelaria. A pasta cada vez mais cheia e vazia dos tais importados que impressionavam os olhos das amigas. Um dia eu cansei daquilo. Usei um dos meu papeis para escrever uma carta, depois outra, outra e outra. A pasta foi minguando, completa de espaços vazios.

“Você é louca de acabar com a coleção! Papel de carta não é para usar para escrever cartas! Você ainda poderia ganhar um importado!”; eram elas repetindo o sentido da vida para mim.

Escrevi uma cartinha para cada uma delas. Minha árvore ficou vazia de vez.

Até hoje tenho amigos para os quais escrevo cartas. Não sobram muitos papeis ou cartões postais na gaveta, tenho sempre que repor, justamente porque eu uso tudo, quanto mais os bem bonitos. Já as amigas do passado, nunca responderam às cartinhas. Devem ter esquecido aonde guardaram a pasta cheia, amarelada e roída por traças.

Espero que os dois passarinhos tenham se entendido. Cada um consigo mesmo e os dois juntos para melhorar o sentido da vida.

Dipacho é autor do livro ‘Os dois passarinhos’, com selo editorial da Pulo do Gato.  A cada dupla de páginas o olhar percorre a cena para descobrir os elementos que são introduzidos no quebra-cabeças narrativo, culminando num desfecho inesperado.

Humor e leveza, Dois passarinhos convida à observação crítica do mundo que nos rodeia, em que o consumismo acumulativo se sobrepõe muitas vezes ao valores éticos. Um livro que faz pensar sobre o que é de fato importante para dar sentido à nossa existência.

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4 comentários em “dois passarinhos

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