O pássaro do tempo

Quando eu era pequena, tinha especial predileção por velhos. Era uma espécie de afeto transferido. Eu me sentia perto dos meus avós e isso funcionava como empatia com a velhice.

Dona Brigite, por exemplo, morava na outra casa de esquina que emoldurava a ponta da rua com a casa da minha avó Laura. Dona Brigite tinha pomar e horta. Os cabelos eram ondulados e completamente brancos. Combinavam tão bem os brincos de pérolas naquelas orelhinhas murchas.

Minha avó me dizia que orelhas grandes sinalizam vida longa. Minha avó tinha orelhas grandes, no entanto, morreu  aos 81 anos. Eu sempre acreditei na minha avó e entendi que 81 era longo percurso.

Dona Laura era doce como Dona Brigite, mas não parecia ser assim Dona Isaurinha.

Dona Isaurinha,  pouco expressiva, nunca era vista no portão. A sombra percorrendo o quarto, o piano tocando desafinado naquela casa sem cor. Dona Isaurinha dava arrepios. Diziam que Dona Isaurinha fazia festiços para roubar tempo de vida de crianças.

“Aquela música estranha fazia os ponteiros do relógio andarem no sentido anti-horário, pois era tocada ao contrário, invertida. Quando isso acontecia, o cuco, um passarinho que sai de dentro do relógio a cada hora completa, sugava as crianças desavisadas que passavam pela calçada naquele momento. Por isso é que a janelinha da porta da rua ficava sempre aberta.”

Dona Isaurinha chegava no fim da tarde, mas ninguém via Dona Isaurinha sair. Talvez ela tivesse uma vassoura voadora, ou uma capa de invisibilidade. Quem sabe…

Felizmente, Dona Isaurinha morava ao lado da casa da minha amiga e não da minha. Minha amiga, Ana, também amava sua avó. Sim, ela amava. E ela bem que poderia tratar de transferir afeto para Dona Isaurinha, que além de tudo tinha orelhas bem compridas. O fato é que a vizinhança estragou Dona Isaurinha com a associação bruxa velha.

Até que um dia a avó de Ana adoeceu e sua mãe pediu que Dona Isaurinha cuidasse da menina.Nem queiram saber do pavor.

Meu avô Valentim foi pescador no mar durante bom tempo. Ele voltava pra casa com um cheiro de suor, sal e roupa gasta. A pele queimada, as costas curvas, as muitas rugas. E o sotaque no falar rápido.

Meu avô chegava antes da gente se levantar. Acendia uma boca de fogão e misturava sardinhas inteiras com tomate e cebola. Eu mesma achava esquisito. Menos esquisito que o vinho com cerveja que ele tomava junto daquela refeição.

Ana teria medo, muito medo, do meu avô, mas meu avô faria Ana gostar de sardinhas.

Já Dona Isaurinha era outra história, enquanto o relógio velho tiquetaqueava uma melodia para suspender o velho tempo.

Naquele dia, em que a mãe de Ana levou a avó para o hospital para não mais voltar, foi a hora de provar da vida um dos piores remédios. As orelhas podem ser longas ou curtas, as pessoas não duram para sempre.

Mas a roda da vida é feita de magia. E a magia de histórias. Depois disso, parece melhor eleger os velhos nossos avós até o dia em que sejamos nós os velhos. Um feitiço de eternidade. Um placebo para fazer brilhar pérolas nas nossas orelhas murchas.

Para quem tiver curiosidade sobre um bom texto, uma avó, um cuco, uma vizinha velha e uma menina com  imaginação fascinante, procure O pássaro do tempo, texto autoral de Ana Lasevicius, com imagens de Sônia Magalhães, selo Editora Autêntica.

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