Margarida, coisa mais querida

Tem o dia da preguiça.

No dia da preguiça a gente não faz nada que é para não estragar a preguiça que a gente tem.

A gente sai da cama tarde, toma café bem demorado, vai deitar no sofá ainda sem pentear os cabelos.

No dia da preguiça é proibido se sentir culpado por não querer fazer nada. Mas a gente pode fazer coisas se quiser, porque o dia da preguiça serve para isso: fazer somente o que a gente tem vontade.

Tudo bem ficar sem fazer nada de vez em quando, né? Curtir um dia de preguiça pode funcionar como um xarope que cura nossa tosse cansada de muita energia gasta em dias corridos, cheios do que fazer.

Mas viver de preguiça, pode? Acho que só para parasitas. Você sabe o que é um parasita, né?  Os parasitas são aqueles que se encostam em outros seres vivos e vão sugando a energia deles para sobreviver. Eu lembro de árvores que eu conheci cobertas de parasitas, algumas secando para morrer.

Gente não é parasita. É bom que seja dito para não restar aquela dúvida na cabeça de algum preguiçoso profissional.

Para viver plenamente, gente precisa correr, brincar, cantar, pensar, produzir coisas. Quando a gente adormece profundamente no fazer nada, nada de bom acontece. A gente mingua, fica doente de uma doença mole e pálida.

Foi assim com Margarida. Todo dia sem nada que a tirasse do lugar. Todo dia sem querer mexer um dedo.

É claro que a mãe se preocupava e insistia para Margarida levantar, se arrumar, brincar de bicicleta. Mas Margarida nem por isso. Ficava o dia todo parada, mole feito maria-mole.

O pai também quis saber o que se passava com aquela menina que dormia sobre o prato de batatas fritas e ainda recusava um passeio a pé com direito a sorvete. Não é possível uma criança desanimar para tomar sorvete. Margarida desanimava.

Na escola era o mesmo lenga-lenga. Não se juntava a turma, não brincava de corre-cutia, nem de mãe da rua. Margarida era uma estranha criatura.

Até que um dia a mãe viu o pezinho de Margarida balançando no ritmo de uma música que tocava lá longe.

A mãe de Margarida, então, ligou o rádio numa música bem bacana e foi caminhando devagar até o quarto da filha…

Já era dois pezinhos balançando. Pernas e braços e logo Margarida inteira mexendo o corpo fora da cama.

Dançou tanto e cantou tão alto que até o vizinho escutou.

Depois disso ficou fácil. A mãe de Margarida descobriu como fazer para acabar com a moleza. Era ligar o som e ver uma menina vivamente agitada pela casa.

A música para Margarida foi como um xarope bom pra tosse.

Tem remédio para curar cada coisa, né?

A história da Margarida foi escrita por Ana Cretton, ilustrada por Bruna Assis Brasil no livro MARGARIDA, COISA MAIS QUERIDA, com selo da editora Escrita Fina.

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