os monstros mais medrosos do mundo

Eu tenho medo danado de barata. Não sei a razão disso. É uma sensação que percorre meu corpo. Parece que ela sabe que eu estou ali parada, congelada de medo. Daí que eu corro e fico torcendo para ela não correr para o mesmo lado.O medo é um sentimento caótico. Dá dor de barriga, arrepio, um monte de pensamentos absurdos povoam nossa cabeça.

O medo tem imaginação ruim.

Parece mal falar uma coisa dessas, afinal imaginação é sempre uma coisa alegre e saltitante. Só que não. Eu já imaginei mais de mil vezes que baratas invadiram os armários da cozinha e estão prontas para dar o bote assim que eu puxar de lá o liquidificador. Que medo!

Se eu fosse um monstro, feito barata – que tem muitas pernas peludas e antenas e casco duro – eu não teria motivos para sentir medo. Pensando assim, acho que a barata não teme o chinelo de ninguém.

Outro dia chegou aqui em casa o livro da minha amiga Paula Bolinho de Chocolate. Opa, é Paula Browne, o nome da doçura.

Pois bem, o livro da Paula é um livro de medo e de monstros, no contrasenso: Os Monstros mais Medrosos do Mundo.

Isso não pode ser, Paulinha!, monstro nada teme porque ele é o próprio ser apavorante.

Ugo é protagonista monstro do livro, muito açucarado, engraçado e feliz. Ele gosta de fazer rimas, aproveita os dias de sol, curte dançar pelado pela casa, e também tem muitas perninhas (quase barata).

Coisas desconhecidas, no entanto, deixavam o monstrinho receoso: o primeiro dia de aula, um prato diferente, uma irmãzinha. Como lidar com o novo? Pior ainda: como lidar com o seu semelhante se todos na cidade são monstros? E monstros, como já fora dito, são monstros. Temíveis, aterrorizantes, arrepiantes!

Ugo tem amigos na escola. Os amigos de Ugo são monstros também. Os amigos de Ugo, por mais esquisito que isso pareça, sentem muito medo de monstro também.

Monstrinho com medo de monstro? Estranho… Estranho nada. Eu já vi gente atravessar a rua só para ficar longe de outra pessoa. Triste isso, né? Gente com medo de gente.

Tudo bem que a gente sente medo de barata, que é muito menor do que uma pessoa, mas sentir medo de alguém igual a nós é como sentir medo de olhar no espelho.

Com muito humor e delicadeza, além de ilustrações divertidas, Paula Browne brinca com seus leitores para lembrar que somos todos iguais, embora diferentes. Cada um com seus gostos, qualidades, defeitos; cada um com seu jeito de ser.

Permitir-se conhecer e aprender com o outro não é nenhum bicho-papão.

Conhecer a si mesmo é o único caminho para ser mais gente. Ou monstro.Contanto que seja um monstro que nem o Ugo, gentil e amistoso, que curte os amigos e que tem muitas pernas, quase igual a irmã barata…

* Para os leitores mais corajosos, o livro Os Monstros mais Medrosos do Mundo, de Paula Browne, leva o selo da editora Rocco, do Rio de Janeiro.

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