Joana no trem

Começar uma história passa por diversos pontos de indecisão. Quem será a personagem? Que tipo de bicho, gente, planta, monstro ou coisa que nunca antes se viu, ela será? E o que ela estará fazendo para contar a história?

A história começa parada num ponto de interrogação de muitas perguntas. E como um trem, a história precisa de uma forcinha para se mexer nos trilhos, sair do lugar.

Um trem comprido.

Um trem comprido com muitos vagões.

Um trem comprido com muitos vagões que viaja de um lugar a outro. Não se sabe qual o primeiro lugar, nem o segundo.

Será que isso é tudo para uma história?

Na primeira cabine, tem uma vaca. Ela não muge, mas observa a mão que a desenha as cortinas que correrão pela janela.

Na segunda cabine, dorme um cão idoso.

Na terceira cabine, uma cabra pula sem parar.

E na cabine seguinte está a porquinha. Uma porquinha rosa que não é um cofrinho e que, por isso, trata de pedir uma mancha sobre o ombro.

– Senhora Ilustradora, por favor, trate de arranjar uma mancha porque eu não posso ser confundida com um cofrinho.

Isso é bem estranho. Um desenho falar com o autor do livro? Não, isso não é estranho. Sempre acontece. Estranho é uma porquinha querer uma mancha.

– E diga, Senhora Desenhista, qual o meu nome?

Mas, a criadora não sabe responder à criatura. Tantas coisas para pensar sobre os vagões desse trem comprido que acabou por esquecer de dar nome à personagem.

Uma porquinha rosa tem cara de muitos nomes.Talvez, Penélope ou Catarina. Não, esses nomes serviriam bem para uma girafa ou uma coruja de olhar comprido. Talvez, Liz ou Iná. Não, Liz é nome que se dá para flor, serviria bem para um abelha africana; já Iná impõe a visita de uma corsa.

Uma porquinha só pode se chamar Joana. Joana é um nome simpático, feliz.

O nome da porquinha decide a própria porquinha.

– Pronto, Senhora Ilustradora, já decidi o meu nome.

Joana vai no trem e é Joana quem dita à autora do livro, Kathrin Schärer, as cenas que gostaria de ver na sua história de viagem, bem como os outros passageiros que sobem e descem nas estações.

Um panda violeiro, uma família de ursos polares que estão prestes a perder seu filhote e é já que anoitece: cada janela acesa tem uma nova história para contar.

A história de Joana é criada a partir de uma conversa entre a personagem e sua autora. Durante a travessia das páginas, as mãos da desenhista, e seus objetos de trabalho, aparecem em branco e preto no contraponto colorido das aventuras de Joana.

O leitor sente a vivacidade da história e se aproxima da brincadeira da criação. Afinal de contas, a viagem da nossa história a gente inventa.

E Joana? Joana foi no trem. Até arrumou boa companhia.

E a Senhora Desenhista? Sim, parece que ao final se distraiu com um navio… Mas isso, é outra história.

Joana no trem, Kathrin Schärer, tradução de José Feres Sabino. Editora Brinque-Book de São Paulo.
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