uma pergunta tão delicada

Dá dor de barriga. Dá vontade de chorar e rir feito bobo também. Dá mal jeito nas pernas, os joelhos ficam amolecidos no cada passo antes de encontrar com alguém. Dá cambalhota na cabeça. Dá esperança sem fim. Dá tanta coisa que a gente não entende como acontece tudo ao mesmo tempo.

“Todos escalaram até o topo da pequena colina, como faziam todos os anos.

O elefante estava sentado e tinha uma pergunta delicada a fazer.”

Sabe, é estranho quando alguém tem uma pergunta delicada para fazer. Uma pergunta delicada já se sabe sem resposta.

Um dia meu filho também me perguntou coisa assim. Lembro bem da carinha dele. Pobrezinho. Tão novo. Será que ele daria conta daquela montanha russa?

– Mãe, como a gente sabe que está apaixonado?

Doeu minha barriga. Deu piripaque na minha garganta, um fogo correu meu estômago. Deu moleza. Deu preguiça. Deu mal jeito nas costas. Deu vontade de chorar.

Também o elefante tinha uma pergunta delicada para fazer. Naquele dia, a formiga pensou que seria sua oportunidade de progredir na vida, afinal de contas, ela anotaria tudo e diria as coisas que se diz quando presidimos uma reunião. O oficial presidente, senhor tartaruga, não podia estar presente; ele cuidava de sua esposa doente.

A formiga estava radiante, todos prestariam atenção nela. Ela até se arrumou com um par de óculos para garantir a seriedade de cada pronunciamento. Mas a conversa que seguiu à pergunta delicada do elefante, não agradou em nada a formiga.

O mar dizendo que quando cansa, seu amor lhe dá um empurrãozinho. As nuvens suspirando um flutuar juntas mesmo depois de uma discussão, com direito a relâmpagos e trovões. E a maçã corando ao ver seu amor.

Ainda teve criança que recordou poemas, e que, apressadamente, a formiga interrompeu de serem ditos. Deixasse vir um poema, logo viria outro, a reunião não teria fim.

Ao final do dia, todos regressaram sem resposta para a pergunta tão delicada. O elefante, agradecido, foi o primeiro a ir andando.

A formiga achou aquilo tudo um absurdo. Devolveu as anotações para o senhor tartaruga e voltou sozinha para casa. Tão sozinha que lhe doía a barriga.

A história do elefante que nos conta é Leen Van Den Berg, em UMA PERGUNTA TÃO DELICADA”, com belíssimas ilustrações de Kaatje Vermeire. O livro, traduzido por Cristiano Zwiesele do Amaral, leva o selo da editora paulista Pulo do Gato.

Quando meu filho me perguntou como ele saberia se estava apaixonado, engraçado, lembrei dos dias de prova e daquelas apresentações teatrais – que eu levava muito a sério – que sempre me metiam em dores de fracasso, ainda que os momentos fossem igualmente felizes.

O amor é tudo isso, tal e qual os versos do poeta, Carlos Drummond de Andrade, quando segue o amor que pulou o muro e já está em tempo de estrepar… e já se vê o sangue.

“Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender…”

Para cada pergunta delicada, um monte de outras perguntas tecemos e todas as (im)possíveis respostas que colecionamos vale menos do que sentir.

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