Respostas às tuas e às minhas perguntas – Raquel Serejo Martins

Para o Salvador depois de aprender a ler

Cat on a Chair, Sanyu

Sê nómada.

Não tenhas medo de leões nem de professores de matemática.

Todos os dias come um pouco de sol e um pouco de verde.

Planta várias árvores.

Sobe às árvores mas não apoquentes os pássaros nos ninhos.

Deixa o sol entrar mesmo se tiveres de fechar os olhos.

Preserva a transparência e o silêncio.

Usa barbatanas porque debaixo de água podes voar.

Lê muitos livros e joga ping-pong.

Lê a Mafalda do Quino e o Corto do Pratt.

Embarca em todas as viagens dentro e fora do teu corpo.

Atenta nas cores do Outono. Novembro também é um mês bom.

Procura todos os dias uma pequena alegria e se não encontrares nenhuma dança.

Chora sem medo e em casos de incêndio.

Bebe chá sempre com companhia, pelo menos de um gato.

Se tiveres tempo tem um cão.

Podes comer chocolate todos os dias se tiver no mínimo 80% de cacau.

Aprende a gostar do vento, de favas e de ópera. São muitas as coisas de que não se gosta à primeira e há músicas antigas de que vais gostar muito mais.

Separam-nos quase quatro décadas e, quando tiveres a minha idade, se eu ainda existir, não te esqueças de me contar o que sentes dentro do corpo, à flor da pele e debaixo dos pés, sempre que ouves os Verdes Anos na guitarra do Carlos Paredes.

Não abuses de ti nem de ninguém.

Descobre o significado íntimo das palavras.

Tenta aprender todas as línguas do mundo.

Sê estrangeiro de ti.

Sê tenaz no amor mas não insistas no amor nos corações errados.

Sê o que quiseres, com a condição de seres feliz.

Por definição desliga a televisão.

Tem noção que não precisas de matar para viver, basta plantar e semear, todavia treina e mantém afinada a pontaria.

Respeita a lentidão das lesmas.

Experimenta pintar, e se como eu fores mesmo mau mas te der prazer, pinta e está-te nas tintas para os outros e para o resultado.

Como regra: não percas tempo, anda depressa mas respira devagar.

Percebe, a cada segundo, a velocidade a que bate o teu coração.

Guarda que a única coisa que é para sempre é morrer.

Urgente é apenas a alegria, o amor e a ferida.

Diz que não gostas quando não gostas.

Nunca te esqueças da delicadeza e que uma pedra é uma pedra é uma pedra.

Olha que a esperança nem sempre é uma menina de confiança e desistir pode ser uma grande vitória.

Evita viver a crédito, não te permitas ser refém de meros objectos e grava, escreve na mão para lembrar, tatua se necessário, que não há coisa de maior preço do que o teu tempo.

Procura a companhia dos teus poetas preferidos.

Faz amigos sob a condição do encanto e da ternura.

Não acredites em muitas coisas inexplicáveis.

Desculpa as asneiras dos teus pais, tu sabes mais.

E espero, eu sentada à tua espera, que nunca falte aos dias dos meus olhos o barulho do teu sorriso.

Raquel Serejo Martins

Esta conexão com o Clube de Leitores É Giro!

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