Convivo muito bem com os cães da rua

 

Convivo muito bem com os cães da rua.

Me apraz o velho e o bom modo de vida

que os faz, sem ter do que cuidar na vida,

medir distâncias de uma a outra rua.

 

Comparto com os cães o ar da rua.

Se um deles me dirige um riso cardo,

como quem dissesse “E aí, Ricardo?”,

respondo-lhe: “Olá, irmão!” E a rua,

 

que até há pouco erá só mais uma rua

por onde vadiavam um cão e um bardo

(cada um caçando, do seu jeito, a vida),

 

me obriga a distinguir, nela, o que é a vida

real do que será, quem sabe, um tardo

sinal do quão são irreais o cão e a rua.

 

– Ricardo Aleixo –

 

* este poema está inserido na obra Modelos Vivos, livro selecionado pelo Programa Petrobrás Cultural, Crisálida Editora.

 

** a fotografia é de Bruno, fotógrafo de Bruxelas, que publica seus cliques em: monnikonetmoi.skynetblogs.be

 

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