quanto vale uma história?

A gente se conheceu meio que despropositadamente. Nossa amiga em comum me disse que eu precisava saber dela, por isso fomos ao ateliê. O ambiente era de meia luz, com exceção da tela e da prancheta que recebiam iluminação direta. Havia uma chaise longue recostada ao fundo, imperceptível no jogo macio de sombras.

Erguemos uma taça para saudar a senhora que começava a se apresentar.

Ninguém é leve o suficiente para voar. Imediatamente pude perceber nela o olhar que leva o dito peso dos anos. Leva, não leve.

Talvez a gente some a conta de algumas escolhas impensadas, quem sabe a espera de uma oção melhor que nunca vem bater à porta, quiçá a falta de um plano B que nos possa roubar de uma condição opressora, na hipótese mais realista um número de situações para as quais não tivemos força de dizer não.

A vida não é só crédito de filme, tem corte por fazer e corte já feito, tem erro de sequência, tem deformidade de personagem, tem uma lista de pequenas grandes coisas que ficam martelando a nossa cabeça diretora com o velho lema ‘eu poderia ter feito melhor’.

Entre os tópicos conversados, nós duas ancestrais amigas e a senhora do ateliê, passamos pelo torpor de levantar cedo e o horror de chegar a casa com trabalho infindável a esperar por nós: o banheiro por lavar – a máquina de lavar – sem fim a roupa passar – a televisão a matraquear – a sopa que é prato rápido. O fim da linha é exaustão. Quando damos conta de quem somos, há uma flácida aparência entre as coxas e uma renda de pele que balança do cotovelo à axila.

Coincidência ou não, a senhora do ateliê tinha se aposentado na vida forense e eu sabia bem as salas do Fórum João Mendes de São Paulo, algumas com entradas labirínticas a formar ferraduras ou espirais, estreitas proporções para entrada e saída, e todas aquelas das pilhas e pilhas e pilhas e pilhas e pilhas… de processos judiciais. Uma tarde, eu recordo como fosse hoje, entrei e estavam cantando os parabéns.

– Parabéns aqui? – Pensei quase em voz alta.

30 anos de vida forense e me sorri. O ambiente forense não faz deixar leve. Ao menos não para mim. No entanto, a senhora me contava das enxaquecas com mesmo zelo de quem prepara escalda-pés e eu podia ver reluzir nos lábios dela um conselho:

– Pode queimar você, por isso é preciso descobrir o jeito, a forma.

Eu quase compreendi.

Revisitamos os desenhos dela, ou melhor, os desenhos que fizeram dela. O plano B nunca veio, mas depois de se aposentar na vida pública, Guida se tornou modelo.

Desculpem-me pela total distração, o nome da senhora: Guida.

Já passava dos sessenta anos, suponho, quando, pela primeira vez, entrou no estúdio desconhecido, subiu no tablado e deixou cair o roupão de algodão para ficar nua entre estranhos. Artistas, mas pessoas de carne e osso.

– Nua! – Lembro que esbocei um sorriso. – Também sinto vontade de virar desenho, caminhar para mundos paralelos na ponta de crayon, pastel, grafite, bic, pincel, mouse…

Naquele instante eu me perguntei o quanto vale uma história. Vale a possibilidade de um dia ser visto por inteiro. Vale o sentimento de se deixar ver por inteiro.

A gente falava da nudez como quem precisa desaguar. Foi tanto que eu chorei. Chorei e choro ao lembrar que Guida  finalmente lançou mão do plano B que não teve para poder viver todos os planos, ser ela muitas vezes, nuas vezes, inteira nas imperfeições que marcam história.

Ainda ontem, numa conversa inesperada, comentei com Rosana Urbes, amiga em comum, minha e de Guida, que são as imperfeições que nos possibilitam viver a beleza de sermos humanos. É a imperfeição que vejo em Guida, o tremor que sentimos diariamente ao despertar para um novo dia que pode sempre pode ser o último, sim pode doer, mas com jeito pode representar a melhor chance para amar.

* Guida é o filme de animação – mais do que merecidamente premiado – de Rosana Urbes. Procure saber das exibições.

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