Os Três Ratos de Chantilly

Eu sou sensível aos ditados populares porque eles me parecem bons prefácios para longa jornada filosófica. Vou tentar explicar utilizando alguns velhos conhecidos nossos, ao longo da coluna de hoje.

“Em terra de cego, quem tem um olho é rei”, por exemplo, eu conheci na infância com pitada de ironia. Li o dito em algum canto e logo alguém soltou: – quem tem um olho é caolho, não rei.

Demorei com o dilema na minha cabeça: se a terra é de cegos e tem lá alguém com um olho que vê, ele pode guiar os outros e ser rei; todavia, a visão de um único olho não deixa ver o que se passa do outro lado (experimente passar o dia com um olho aberto e outro fechado).

Embora me faltando foco e com certo embaralhamento de imagens, tive a oportunidade de conhecer o Pequeno Príncipe e sua raposa de palavra afiada que, entre tantas, ensina só se ver bem com o coração, “o essencial é invisível aos olhos”.

Na crise de miopia emocional, visão essencial ajuda muito.

Assim seguem os três ratos cegos a caminho da Cidade de Chantilly.

Tomada de curiosidade pela habilidade dos três ratos peregrinos que não desviam da estrada nem tropeçam em obstáculos, Dona Coruja se aproxima com rica promessa.

Desconfiada que os ratos enxergam mais do que dizem, a ave tilinta moedas de ouro fazendo crer que um deles guardará para todos uma pequena fortuna.

Com bom caminhar e boas moedas, os ratos partem para Chantilly. O destino é a hospedaria, comida farta e cama quente pois, apesar dos trajes, os ratos agora podem aproveitar a vida – sem as preocupações de costume.

O dono da hospedaria comemora fisgar as moedas que os ratos irão gastar em seu estabelecimento.

Outro ditado cuida de dizer que não faz mal a ninguém a prudência, dinheiro no bolso e caldo de galinha. De certo que quem se empolga com dinheiro acaba exagerando no caldo, diria até que, na cegueira de ser rei descarta prudência.

Pois, voltando aos ratos… Dona Coruja, faminta, volta para observar a quantas andam seus amiguinhos, ou melhor, seu jantar.

“A mentira tem pernas curtas” e os ratos também. Estranho. Os ratos com pernas tão curtas conseguem ser ligeiros. O mesmo acontece com a mentira.

O dinheiro para pagar a hospedagem não vem e o dono da hospedaria oferece o quarto dos ratos para celebrar o jantar da astuta Coruja.

Acontece que “quem ama o feio, bonito lhe parece”, ou, como profetizou João Gilberto, “o coração tem razões que a própria razão desconhece”, e, ao abrir a porta para encontrar três ratos, Dona Coruja encontra três filhotes de sua espécie.

O que fazer?

Coração de mãe é lugar seguro, logo, o fim da história é previsível? Digamos que é a arte imita a vida em ser uma ‘caixinha de surpresas’.

Procurem saber em TRÊS RATOS DE CHANTILLY, de Alexandre Camanho, com edição da Pulo do Gato, de São Paulo.

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