O fio de ouro de Fatinu

“Uma mensagem que viaja de aldeia em aldeia..

Tecidos vermelhos, laranjas, verdes, dourados, roxos.

Uma árvore gigante com folhagem densa e azulada.

Um vento cantante.

Um macaco desesperado.

A água agitada pela tempestade.

Um som macio e constante, lento e persistente, leve e firme.

Uma música que embala, sussurra e cantarola.

Há tudo isso nesta história.

Uma história que acontece num país

onde a luz é branca de dia, e a lua é redonda de noite.”

Tenho vivido entre histórias; por vezes eu e as palavras a tentar dizer coisas para pessoas que eu nem sei quem são e onde estão – como agora, por vezes com os olhos nos olhos daqueles que me escutam a narração. De toda forma, sempre me ponho a pensar na história antes da história, naquele momento em que a palavra primeira nasce na cabeça, depois canta na boca e vai atiçar os ouvidos de quem, por sorte, esteja próximo.

Um livro novo vem até mim, quase mágica.

Fatinu é a menina que faz crescer a história numa aldeia distante (que pode também ser a minha aldeia, a sua aldeia, a aldeia de nossos antepassados), um lugar onde se passa a história e de onde se pode perceber o Universo.

A mãe de Fatinu vai tecer os trajes de festa a começar pelo comprido bubu de papai. A menina reclama ranzinza e resmungona, quer primeiro seu vestido, mas a mãe calmamente responde:

“- Amanhã de pois que velha Rapi me entregar o fio de ouro para o seu vestido.”

O fio de ouro de Fatinu começa com a promessa de uma travessia pela noite escura onde a menina vai descobrir mais sobre a aldeia em que vive, mais sobre si  e sua capacidade de perseverar.

“Debaixo do grande baobá, Fatinu escuta o vento.”

Novamente eu a pensar na história antes da história, porque para fazer crescer a história dentro da gente é preciso saber ler o mundo. Sentar ao pé de uma árvore e esquecer a velha conversa que gente pensa e árvore não pensa, para apenas sentir como árvore, ouvir o vento, desistir de dar forma ao que não tem, nem precisaria…

Fatinu segue pela floresta desistindo dos seus medos para abraçar a vida; ela toma parte de cada folha que estala sob seus pezinhos.

Quem se torna parte da vida compreende sua autonomia como criador, transformador, alguém capaz de amparar responsabilidades.

O amor só frutifica quando nos tornamos responsáveis…

Assim acontece com nossa pequena Fatinu, obstinada por encontrar o fio de ouro para seu vestido de festa, descobre mais coisas que precisam de seu empenho. E o fio de ouro que busca a menina é só o primeiro desenrolar dessa trama valiosa.

Inevitável juntar à aldeia de Fatinu a poesia de um ‘meu’ poeta favorito, um vento que sopra de aldeia em aldeia. Para o bem de todos, relembro alguns versos de Alberto Caeiro:

 

“Da minha aldeia vejo quando da terra se pode ver no Universo…

Por isso minha aldeia é grande como outra qualquer

Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não da minha altura.

Nas cidades a vida é mais pequena

Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.

Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,

Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,

Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,

E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver.”

Tenho vivido entre histórias; por vezes eu e as palavras a tentar dizer coisas para pessoas que eu nem sei quem são e onde estão – como agora… De toda forma, penso na história antes da história, aquele sopro essencial que nos leva ao primeiro pulso de vida, o cantar ancestral que nos identifica como seres cheios de possibilidades, os tais seres humanos.

Fatinu vem trazer a história ancestral.

Em tempo, procurem pelo livro: O fio de ouro de Fatinu, de Françoise Jay e Frédérick Mansot, com tradução de Dorothée de Bruchard, publicado no Brasil pela Folia das Letras, de São Paulo.

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