azul-cego, de Raquel Serejo Martins

Com todo o medo que tenho, tijolo a tijolo, pedaços de medo sólidos e cúbicos, como se a brincar com legos, um brincar cantar a tentar espantar o medo, construí um elefante.

Tenho medo suficiente para construir um elefante, o maior mamífero terrestre, largo, lento, pesado, ambulante, orelhudo e trombudo.

Um elefante não mete muito medo.

Um medo que fermentou, São Vicente te acrescente, São Mamede te levede, São João te faça pão, um medo pão que se alimenta a si próprio, pão-pavor alimento malsão dos meus dias.

Um medo que se fez e cresceu, inchou, levedou, saiu do meu corpo, do meu ventre, abalou, terraplanou, queimou a terra, começou ervilha, cordão umbilical, península, fez-se uma ilha, lembra um navio, uma embarcação que tudo abarca, o mar grande tão pequeno a segurá-lo delicadamente entre os dedos de água.

Cuidado não caia o menino.

O meu medo menino, como os meninos gosta de brincar, de intimidar.

O meu medo navio a deslizar, a errar pelo meu corpo, tudo errado, a obscurecer o azul do mar, o azul do céu, o azul dos olhos meus.

Um azul-escuro-quase-negro, um azul-cego.

O medo na ponta dos meus dedos, os meus dedos a evitar o teu corpo.

O meu medo elefante, ambulante, segue indistinguível na manada, larga, lenta, pesada, segue indistinguível entre todos os mamíferos, apesar de vazio ou cheio de medo, não a mesma carne, não o mesmo tutano no osso, apenas a mesma pele, parece a mesma pele, porque a mesma espessura, a mesma resistência ou a mesma lama a camuflar imperfeições e defeitos.

Perfeito é o amor mesmo quando feito de defeitos.

Só o amor afoga o medo e, em passo lento, o meu medo vai, estranhamente sem medo.

Vai e deixa-me só, estranhamente sem medo.

Aliviada e leve.

Capaz de voar.

Capaz de tudo.

É tão difícil perceber o perímetro, o peso, o volume, a forma, a densidade, a espessura, a consistência, o recheio, o cheiro, perceber o que é tudo.

O azul-cego, cegas as pontas dos meus dedos.

Enquanto nada é nada.

Nada é simples e leve, eu, aliviada e leve.

Uma leveza de pássaro, não sei porquê cegonha.

Sei porquê.

Porque um pássaro desengonçado, porque uma evidente tendência para fazer o ninho em chaminés, em torres de igreja, em postes de alta tensão, em desafio.

O mundo sem chão, a casa sem cão.

Dizem que quem tem medo compra um cão.

Eu tive um cão, morreu velho e cego, o desgosto foi tão grande que o medo encolheu, ficou pequeno, voltou a medrar, a amedrontar, o medo dentro de casa, a circular sem trela, dentro do corpo, habitante, inquilino, gatuno, a casa em risco, o corpo em risco, o coração o isco, e os pulmões a paz, quando me deixam respirar.

A casa suspensa, lembra um navio, um elefante nas nuvens.

A casa pendente do céu, das manhãs de vento, das tardes de chuva.

E nem ventos, nem chuvas, o céu sempre azul.

Azul-claro ou azul-escuro-quase-negro.

É sempre Verão, o Verão é por definição eterno, e as cegonhas são pássaros de uma só estação.

Será possível migrar do medo?

Será privilégio de pássaro?

Será?

E se eu abrir os braços e saltar?

Será?

* Raquel é colaboradora do Blog Clube de Leitores que faz ponte conosco toda semana para Portugal e Brasil se juntarem _em verso e prosa _ da nossa língua portuguesa.

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