a princesa e o pescador de nuvens

Chorar é como chover. Eu bem lembro o que minha mãe dizia de mim, eu chorava baixinho sem fazer qualquer ruído. As lágrimas desciam pela face e os olhos clareavam cada vez mais. Aguados. Mas aquele choro diminuído do lado de fora, diluviava por dentro como uma cachoeira invertida.

Ainda hoje eu brinco com o céu. Choro de chover, choro de diluviar e vejo as nuvens conversando entre si num balé impalpável de formas que se desmancham ao vento para desenhar outro azul.

Tão logo, não tinha pensado que alguém no céu – ou numa torre alta – apanhasse um bocado de nuvem com uma colher para poder soprar um sonho bonito.

” – Aquela tem a forma de um elefante alado com um laço na orelha… Aquela outra parece uma gota enorme engolindo um navio com um jabuti bocejando; e tem um cavalo galopante e um diamante gigante…

Da janela da torre mais alta do castelo, a pequena princesa olhava com a sua luneta as belas nuvens que flutuavam quase paradas no céu.

Ela falava para o seu dragão de estimação (um dragão que vivia resfriado e que voava baixinho feito galinha) sobre as formas que as nuvens tomavam lá no alto, fazendo os mais belos desenhos e parecendo pedaços de sonhos feitos de algodão.

O dragão da princesa colocava a cabeça para fora da janela da torre, olhava atento e tentava abocanhar uma distante nuvem parecida com uma suculenta torta de girassol.

A princesa tinha na cabeça uma coroa feita com colheres (porque coroas de colheres são bem mais legais do que coroas verdadeiras  da realeza feitas em cobre, ouro e nobreza), e espalhadas pelos cantos e pelo teto da torre do castelo, gaiolas de todos os tamanhos, formas e formatos que se pudesse imaginar. A torre era seu cantinho preferido em todo o reino”.

E em gaiolas suspensas em fios de pensamento, os pedacinhos de nuvens esperam o dia em que serão torneados a sopro.

Deito na grama e procuro no azul nuvens que contem histórias. Já vi um pouco de tudo: uma pata seguida pelos seus patinhos, um jacaré levando nas costas uma tartaruga, até Tritão erguendo seu tridente sobre ondas de espuma.

Uma pena muito grande – maior do que de avestruz, se a comparação é infeliz já peço desculpas – que eu nunca tenha visto no céu uma nuvem em formato de minha avó a tecer enormes mantas de tricô.

Mas, em gaiolas suspensas em fios de pensamento, alguns pedacinhos de nuvens esperam o dia em que possam ser transformadas em sonhos. Talvez uma avó a tricotar mantas rendadas para bebês surja no meu céu, dia desses.

É preciso ter ousadia para brincar com o céu. Imaginar é um desafio íngreme. 

Alexandre Rampazo conta em seu novo livro – A PRINCESA E O PESCADOR DE NUVENS – a história de uma menina com coroa de colheres que pode, além de manter consigo um dragão de estimação, soprar novas formas de nuvens no céu. 

O ofício é transmitido de pai para filha. 

“Estar nas nuvens é sonhar”, diz o rei ao apanhar mais um pedaço de nuvem da gaiola para soprar com sua colher.

Se estar nas nuvens é sonhar, não seria equivocado dizer que sonhar é nunca deixar de ter esperanças.

Um dia a menina princesa se depara com um trono vazio e uma mãe que não sabe explicar a ausência do pai sem machucar o coração da filha. No entanto, o coração machucado de um sonhador não desiste de buscar esperanças…

Uma história assim nos deixa pertinho das nuvens, faz com que o azul celeste retorne e que as colheres, manuseadas diariamente nas nossas cozinhas, abram portas para imaginar um sopro que nos acalente todas as saudades.

Alexandre Rampazo além de desenhar a história com palavras, criou para o livro todas as imagens que ilustram o conto. Seus personagens são tão articulados que me dão a impressão de marionetes num grande palco teatral onde se escuta o tilintar das madeiras que os regem. Além disso, as cores que Rampazo escolhe atiçam não só os olhos como também despertam o paladar. Tudo é doce com leves sabores cítricos. O leitor devora do começo ao fim com apetite para o melhor dos manjares.

Para ler e saborear sonhos: A PRINCESA E O PESCADOR DE NUVENS, de Alexandre Rampazo, Editora Panda Books, de São Paulo.

 

 

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