Com palavras também se brinca

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Faz somente uns quatro anos que aprendi a gostar de poesia.  Vim de uma família leitora, sempre ganhei livros de presente, passei parte de minha adolescência trancada em meu quarto lendo clássicos, mas nunca tive um livro de poemas sequer.  Era chato demais, não tinha lógica, não conseguia entender o sentido, resumindo eu achava que o poeta estava tirando uma com a minha cara.

Quanto tempo eu perdi! Que pena a escola não ter dado a devida importância à poesia.

De repente, com quase 40 anos a poesia se escancarou para mim. Não foi um processo lento, não!  Ela veio de maneira arrebatadora, abriu meus olhos, ouvidos, sentidos, me atentei a cada som, ao ritmo, à linguagem.  Foi amor, que hoje me faz levar um livro de poemas na mala em todas as minhas viagens, como se fosse a segurança de uma companhia, a ter um na minha mesa de cabeceira, para ler um poema antes de dormir, como se fosse a segurança de uma boa noite de sono.

Junto ao aprendizado veio a ânsia de passar este vírus do poema aos outros e não deixar que as crianças passem tanto tempo, como aconteceu comigo, para serem consumidos por esta doença que nos regenera.

Leio vários livros de teoria da poesia, por uma questão totalmente pessoal, pois cresci para estudar, não me contento só com o sentimento, tenho que entender de onde ele vem, porém o José Paulo Paes fala com toda a sua sabedoria “será que as explicações teóricas são a maneira mais adequada de fazer com que alguém se interesse pela leitura de poesia? Há na poesia um inato poder de sedução.”  Concordo plenamente com ele, apesar da minha mania teórica.

E para as crianças a poesia seduz em forma de brincadeira, através das repetições dos sons iguais ou semelhantes; o ritmo dos versos; as comparações; as oposições de sentido; as simetrias de palavras ou expressões em versos sucessivos; e assim por diante.

Patacoada

A pata empata a pata

porque cada pata

tem um par de patas

e um par de patas

um par de pares de patas.

Agora, se se engata

pata a pata

cada pata

 de um par de pares de patas,

a coisa nunca mais desata

e fica mais chata

do que pata de pata.

Segundo Paes, “a poesia tende a chamar a atenção da criança para as surpresas que podem estar escondidas na língua que ela fala todos os dias sem se dar conta delas.”

Esta vivência pode ser adquirida em casa, na escola, no carro durante aquele trânsito que deixa as crianças irrequietas.  Que tal brincar com os trocadilhos, ou inventar uma melodia simples para um poema, ou fazer um jogo poético, cada um inventando um verso de um mesmo poema, ou um jogo de rimas??

Letra mágica

Que pode fazer você

para o elefante

tão deselegante

ficar elegante?

Ora, troque o f por g!

Mas se trocar, no rato,

o r por g,

transforma-o você

(veja que perigo!)

no seu pior inimigo:

o gato.

A graça está na simplicidade, é deixar a criança perceber que com as palavras também se brinca.

* Trechos retirados do livro Poesia para crianças – Um depoimento do José Paulo Paes (Editora Giordano, 1996) e Poemas para brincar, do mesmo autor (Editora Ática, 2011).

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