Pindorama!

“Todo dia era dia de índio”, Baby Consuelo já advertia.

No final de semana passado fui a Parati’y. Paraty é nome de peixe que se junta ao ‘y’ de rio. Parati’y solo indígena e tem nome tupi.

Pelas ruas do centro histórico, uma criança dormindo no chão entre os milhares artesanatos de sementes e penas. A mãe autoriza um retrato da turista maravilhada que assim como eu fica pasma de tanta beleza e tanta falta.

Cadê o lugar daqueles velhos donos do lugar?

Na manhã seguinte, caminhei até a varanda da sala e vi o mar salpicado de barquinhos com aquelas montanhas verdes resplandescentes de energia solar. Com os olhos tomados pela grandiosidade do lugar, dei de pensar nos índios que são tratados pela nossa estranheza como estranhos sem pátria, sem lugar, sem língua oficial, sem oca, sem bichos na floresta, sem floresta, sem.

A história segue contata de um jeito branco, como se tudo branco fosse melhor garantia para a evolução do mundo.

E dói o coração quando se percebe que a alegria de viver depende seja eleita a diversidade como máxima valorização do gênero humano.

Felizmente a arte está para a vida e é quando chega na minha casa um pacote de correio com um livrinho cor de gema intitulado “PINDORAMA DE SUCUPIRA”. Quem ofereceu a prenda foi a autora Nara Vidal a quem tenho a possibilidade – amável – de chamar ‘amiga’.

Sucupira é a brasileira que conta a chegada dos portugueses na praia de Pindorama com suas naus enormes e seus nomes esquisitos. Tanta roupa, tanto babado, tanta renda e nenhuma pintura no rosto, nem brinco, nem cocares. Gente estranha que chega na casa da gente sem ser convidado e ainda vai dando ordens para os donos do lugar.

Quem afinal era exótico?

Os índios tinham na natureza um altar e a comunhão com a vida garantia que os deuses fossem lembrados a todo momento, mas os brancos quiseram ensinar o padre nosso ao pajé, também cobrir seus corpos para evitar que algum pecado escapasse.

Fez lembrar o poema de Oswald de Andrade, erro de português:

Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português

Na voz de Sucupira, a dor da perda passa e ela faz ganhar a terra com a nova língua portuguesa que sim, é linda, cheia de tantas palavras doces de pronunciar como é saudade. “Ganhar a língua portuguesa foi, sem dúvida, uma alegria, mas perder o tupi foi, sem dúvida, uma pena”; conta nossa curumim.

Não conto como termina a história, mas posso garantir que Sucupira em uma linha de português fez valer a gramática toda. Simples como a felicidade é. Respeito ao outro, como garantia de ser humano.

E eu canto parafraseando o poeta Caetano, Sucupira é índio que desce de uma estrela colorida e brilhante para pousar no coração do hemisfério sul num claro instante.

Obrigada Nara Vidal por contar trazer ao leitor o olhar de um lugar que não carecia ter dono.

Em tempo: Pindorama de Sucupira, de Nara Vidal, ilustras de Bruna Assis Brasil, da editora Peninha.

 

* o retrato da curumim é de Ayssa Bastos.

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