Aluado

Não me lembro ter sentido medo na infância. Eu morava na Cidade e achava impossível que um lobo fosse viver por ali. Ainda não tinham inventado as versões lobos urbanos para cinema, é bom que se diga. Mas uma criatura assustadora sempre visitava meus piores pesadelos: vampiro. Eu era daquelas que enrolavam os cabelos ao redor dos pescoços (como se fosse adiantar), além de cobrir dos pés ao topinho da cabeça quando apertava a sensação de terror. Viesse o vampiro, eu tentaria resistir bravamente.

Enfim, veio a adolescência. Persistiram os eventuais pesadelos com dentes pontiagudos fascinados pela veia que pulsava no pescoço. Aos poucos não era mais uma cena completa de terror, já que na adolescência o medo é combustível de aventura.

Acontece que em determinada altura, nem sei precisar quando, fui convidada para viajar com a amiga da minha mãe que também era tia da minha melhor amiga. Cena perfeita, partir de mala e cuia com a melhor amiga para qualquer canto, fosse o que fosse, até mesmo Três Corações.

E eu nunca tinha ido para canto nenhum das Minas Gerais.

Naquele tempo a estrada era ruim demais. Esburacada e fininha, cheia de caminhões indo junto. Enjoei o caminho todo, como sempre acontecia nos percursos de automóvel (porque eu nasci para andar a pé ou em algum meio de transporte que eu não me sinta enlatada).

A história tá ficando longa, mas eu vou acabar com isso logo. Chegamos de noite, uma lua imensa branca no céu clareava o quintal da casa que mais parecia um quintal de mundo, tanta árvore, tanta grama. A casa mais próxima fica uma boa pernada dali. Descarregamos as bolsas e entramos para cozinha, tomar água a menina que estava verde de zanzar estrada. Da janela da cozinha a lua imensa fazia acender os galhos das árvores e os balanços que iam e vinham com o vento…

Convenci minha amiga de ir ao balanço de árvore naquela hora mesmo. Saímos de fininho para não levar bronca da tia, mas minha amiga estancou quando abriu a porta  e ouviu longe um uivo.

– Para com isso, é cachorro que tá lá fora e não vai fazer nada com a gente porque a gente gosta de cachorro. – Disse eu.

Lua alta, uivo. Minha amiga venceu minha palidez de enjoo e não arredou pé.

– Amanhã a gente balança, hoje não tem jeito. – Depois de dizer, ela retornou para o quarto, deitou e se cobriu daquele mesmo jeito que eu fazia a vida toda quando cismava que era dia de vampiro…

Crescer faz a gente pensar nas coisas por outro prisma. Que seria de um homem com a sina de ser molestado pela lua cheia sem chance nenhuma de resistir aos seus fascínios?

Aluado.

De quanta angústia é feito um fantasma? De quanto assombro é feita a adolescência?

Aluados.

Da minha estante salta Adriano Messias para contar histórias assim, onde o mistério é carregado de carga psicológica e os personagens, envolvidos em seus dramas, oferecem ao leitor uma percepção poética e deslumbrante do ‘alumbramento’ existencial.

Um livro de contos que começa percorrendo os reflexos de um menino-homem sob a luz da lua cheia:

“O menino pôs-se de pé, finalmente, e uivou para a lua fornida.”

“Bastava o rapaz estar no alto de uma colina, sob o farol do luar, para que sua sombra se espichasse

e parecesse ameaçadora lá embaixo.”

De repente se descobre uma nova condição de homem e lobisomem, depois de tanto sofrer na penosa incompreensão do próprio corpo, pela metamorfose acelerada que aguça curiosidade, mas que não deixa de causar espanto.

 

Em ALUADO, Adriano Messias reúne sete contos de literatura fantástica abordando questões existenciais que ‘também’ podem ser vistas como conflitos de adolescência. Adriano cativa os leitores pela empatia com as questões humanas, conduzindo com texto deliciosamente poético e assertivo a um mergulho em si mesmo.

Além de conhecer lobisomem, em Aluado, tem para apavorar  ‘a alma do boi’, ‘o passarinho de Tiziu’, ‘gente-bovina’, ‘a noite das aleluias’, ‘o fêmur do lobo’ e ‘o pinto que o menino fez crescer’.    As ilustrações apavorantes são de Dane D’Angeli (conheça mais sobre o artista aqui) e a editora é a Giz Editorial. De novas luas, ALUADO é livro a contemplar.

 

 

 

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