mundo palavreado

não sei muito bem o q falar de POESIA que ganha todas as palavras mas que também é desenho riscado no ar do tipo q a gente fica pasmado, com olhos marejados, boca semi aberta só pra ver se – num voo baixo – vem parar dentro de nós.

num dia que eu não sei precisar qual, conheci na nuvem cibernética o poeta Ricardo Aleixo e desde lá venho aleixando a vida sempre q posso. e já posso dizer q preciso aleixar.

o neologismo foi imediato. transformei o poeta em verbo para conjugar em solfejo toda poesia que ele deságua.

poesia para que? poesia para quem? poesia para tudo e para todos.

o poeta não dispensa profundidade, mas mantém da mineirice a mansa simplicidade certeira q nos faz desejar lê-lo em voz alta, porque só quietinho parece pouco.

a poesia de Ricardo convida ao papo bom com amigos bons, uma poesia que faz lembrar o tempo em que eu me sentava com a família no quintal da casa da dinda fazendo roda ao redor do violão que cantava entre nós.

o sol que nos quer aquecer – Ricardo Aleixo transforma as palavras em condutores para um mundo onde sons e imagens transformam os nossos sentidos. o mundo palavreado.

curioso, quando li o nome  – Aleixo – lembrei da palavra alento possível tradução de fôlego, o ar que é aspirado e expirado pelas narinas, mas que também significa coragem: “tomou alento para continuar adiante porque ele conhecia em si o que deveria fazer, mesmo com todo amor que tinha”. a coragem sempre me faz lembrar nossa capacidade de desapego. a coragem se desapega até do último sopro de ar, ela salta e vai além do que se vê.

talvez o nome traduza muito da pessoa. talvez.

Ricardo Aleixo não se limita a gravar no papel a palavra. o poeta canta, entoa, cultiva, borda (textualmente), movimenta, desenha. uma compilação de alentos que ventilam verbetes prontos para brotar.images

não carece explicação, nem de entendimento, trata-se de uma poesia viva, dinâmica, feita de carne e osso e bons pedaços de vazios; uma poesia que é para qualquer pessoa caminhar com ela.

a bibliografia do moço inclui 8 títulos : Festim (1992); A roda do mundo (1996, com Edimilson de Almeida Pereira); Quem faz o quê? (1999);  Trívio (2001); A aranha Ariadne (2003); Céu inteiro (2008); Modelos vivos (2010 – finalista dos prêmios Jabutnão i e Portugal Televom em 2011); e o título mais recente  Mundo palavreado (2013), publicado pela Editora Peirópolis de São Paulo.

do mundo palavreado, vem o poema ‘palavrear’ que, de tão indispensável, reproduzo aqui para que vocês saibam (sintam) o que eu estou tentando contar.

como se não bastasse, vai a voz do poeta (http://br.goear.com/listen/484a142/palavrear-ricardo-aleixo-e-zal-sissokho) para mostrar que a palavra tem peso, cor, forma; a palavra que Ricardo Aleixo semeia jogando palavra ao vento só pra ver ela voar.

e não vou dizer mais nada depois disso. disse tudo sem maiúscula justamente porque a conversa é bem chegadinha, é próxima, é aqui entre nós.

vá lá, procure pelo livro, reúna os camaradas e sirva em doses generosas a poesia.

  
Palavrear
  
Minha mãe me deu ao mundo
e, sem ter mais o que me dar,
 
me ensinou a jogar palavra
no vento pra ela voar.
 
Dizia: “Filho, palavra
tem que saber como usar.
 
Aquilo é que nem remédio:
cura, mas pode matar.
 
Cuide de pedir licença,
antes de palavrear,
 
ao dono da fala que é
quem pode lhe abençoar
 
e transformar sua língua
em flecha que chispa no ar
 
se o tempo for de guerra
e você for guerrear
 
ou em pétala de rosa
se o tempo for de amar.
 
Palavra é que nem veneno:
mata, mas pode curar.
 
Dedique a ela o respeito
que se deve dedicar
 
às forças da natureza
(o animal, a planta, o ar),
 
mesmo sabendo que a dita
foi feita pra se gastar,
 
que acaba uma, vem outra
e voa no seu lugar.”
 
Ainda ontem, lá em casa,
me sentei pra conversar
 
com as minhas duas meninas
e desatei a lembrar
 
de casos que a minha mãe
se esmerava em contar
 
com luz de lua nos olhos
enquanto fazia o jantar.
 
Não era bem pelo assunto
que eu gostava de escutar
 
aquela voz que nasceu
com o dom de se desdobrar
 
em vozes de outras eras
que voltarão a pulsar
 
sempre que alguém, no vento,
uma palavra jogar.
 
Gostava era de poder
ver a voz dela criar
 
mundos inteiros sem quase
nem parar pra respirar
 
e ganhar corpo e fazer
minha cabeça rodar,
 
como roda ainda hoje,
quando, pra me sustentar,
 
eu jogo palavra no vento
e fico vendo ela voar
 
(jogo palavra no vento
e fico vendo ela voar)

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