Asas

Quem quer asas para voar?

Num voo rápido pelo dicionário, diz-me o sabido que asas são membros de um animal. Mas nós também somos animais, não somos? Membros… Mas o que são os membros? Sou membro de congregação nenhuma, nem membro de clube, também não sou membro da associação de moradores. Deixei-me sem asas por falta dos membros?

Como é difícil entender o voo. Deve ter sofrido um bocado o Senhor Santos Dumont que, apesar de contornar a Torre Eiffel com um dirigível, não exibiu asas suficientemente grandes para levar o título de pai da aviação. De certo os irmãos Wright eram membros de uma grande cúpula de examinadores de asas e de voos. Mas isto não importa – ao menos não completamente – às asas que falamos aqui.

A menina no avião olha pela janelinha e diz para a mãe:

– Parece algodão. Eu poderia pular sobre as nuvens como um imenso pula-pula.

A mãe diz não, que aquilo é absurdo. A menina tem as asas podadas. Aquilo dói absurdos.

O menino no balanço quase transforma em fios as correntes que o seguram, tão longe ele vai. O pai grita de longe:

– Não pode, não deve, para com isso agora porque você não é bicho que voa.

O menino interrompe o voo porque lhe machucaram as asas. Talvez ele nunca mais consiga levantar um mísero centímetro do chão.

Na sala de casa, envolta numa manta carmim, a menina admira o lápis voando sobre o papel e pede à mãe que lhe desenhe, sem sardas – porque não gosta delas – e com asas para que ela se veja assim. O nome da menina é Lia. Lia é leve e ilumina a casa como um pequeno vagalume ilumina o caminho na noite escura.

Uma menina com asas? A mãe pensa, pensa, pensa… Nem pergunta, desenha, desenha, desenha e empluma: recheia de penas.

“Não assim, Mami. Eu não sou passarinho. Quero asas de criança.”

De fato que não é passarinho a menina. Apesar de ser bonita a visão de uma menina passarinho com vontade de voar.

“A mãe de Lia desenhou-lhe, então, asas feitas de balas e chocolates.”

Porque toda criança – ou quase toda, ao menos Lia – gosta de abusar de balas, pirulitos, algodão-doce, chocolates, biscoitos.

“Você é engraçada, Mami. Asas doces? Assim vou acabar comendo tudo e não poderei voar. Desenhe asas que não possam ser comidas. Asas fortes.”

Apaixonei-me por Lia. Asas fortes. De onde viriam e do que seriam as asas de criança?

Asas de bolinhas de sabão? Asas de conchas? Asas de pipas, papel de seda? Asas de couro de dragão? Asas de madeira? Asas de arame? Nada disso se parece com asas de crianças. OU parece?

A mãe de Lia, no entanto, não diz “não, você não é bicho que voa”, a mãe de Lia não grita “isso é perigoso”. A mãe de Lia não alardeia “absurdo”  para o voo que a menina quer alcançar.  A mãe de Lia sabe que é possível a menina ter seu par de asas. A mãe de Lia deixa a filha voar porque ela também quer voar… Mais do que tudo.

Asas de que? Asas aonde?

Felizmente, Lia quer buscar e vai buscar, com os olhos fechados, as asas que a farão voar ali e para sempre. As asas de Lia que despertam as nossas asas, mesmo que as nossas asas estejam podadas, machucadas, doentinhas. Tudo se pode curar com asas, porque as asas lá no dicionário sabido também estão significadas como ‘esperança’.

Conto a história de Lia que me foi contada por Maya Hanoch em seu livro ASAS, com ilustrações flutuantes de Ofra Amit, tradução de Regina Berlim, edição de Renata Farhat Borges, selo Peirópolis, de São Paulo.

Um livro que resgata em nós a esperança, a fé em ser, a fé no ser.

Um livro para entender que os nossos membros invisíveis são tão mais necessários que os membros visíveis…

 

 

 

 

 

 

 

 

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2 comentários em “Asas

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