– mãe, me conta uma história?

“Era uma vez um rei riquíssimo e poderoso que se achava muito bonito. Na realidade, ele tinha até uma bela altura e um porte majestoso, mas seu nariz… seu nariz era um horror! Imenso, torto, vermelho, enrugado e, ainda por cima, tinha bem na ponta duas imensas verrugas com três fios de cabelo em cada.”

– Imagina só, filha, alguém ia arriscar dizer algo sobre o nariz do tal rei vaidoso?

– Eu diria!

– Disso não tenho dúvidas… Mas acontece que – em condições normais de temperatura e pressão – as pessoas geralmente temem dizer coisas desagradáveis aos poderosos. Por isso mesmo, o rei da história seguia a vida se sentindo o lindo dos lindos; o mais belo dos belos (sou rei, sou rei!).

– Estou curiosa para saber o que vai acontecer com o rei.

– Com o rei? Com o rei pouco acontece porque ele é rei e sabe como é, tem coisas só de rei para fazer e isso é uma chatice sem tamanho; mas temos os súditos na história para fazer tudo acontecer…

– É melhor ser súdito do que ser rei, né mãe?

– Eu preferiria se me fosse facultado escolher, filha.

– Você gostaria de ser o que num reino desses, mãe?

– Poderia ser a cozinheira. Já pensou que medo bota no rei a cozinheira?

– Por que ela pode salgar tudo demais, né mãe?

– Porque ela pode meter canela em pó no assado e ganhar o paladar do rei, também filha.

– Eu adoro canela. A cozinheira é cheia de surpresas.

– A cozinheira é cheia de histórias.

– E o que aconteceu com o rei de nariz tão horrível?

– Ah, é mesmo, vamos voltar ao rei.

“Um dia, perto do aniversário da sua mãe, o rei reuniu seus ministros e disse: – Que melhor presente eu poderia dar à rainha do que um retrato meu, feito pelo melhor pintor do reino? Pois quem não gostaria de ter pendurada em sua parede a imagem de um homem tão bonito como eu?”

– Eu que não queria, mãe.

– Nem eu! E isso do rei ser tão vaidoso e sem noção ainda vai piorar muito as coisas para os tais pintores… Porque se o espelho deixou escapar do horrendo aparato nasal, as pincelas realistas não perdoarão.

– Ele vai acabar mal, o pintor, já tô vendo tudo. Ai, se eu estivesse no lugar dele…

– Não conta ainda, filha. Deixa contar ver a história.

– Mas essa história é tão boa que eu quero que demore, mãe. E depois dessa você pode contar outra?

– E mais outra, filha minha!

– É o melhor dia de todos, mãe.

– Por que?

– Porque hoje eu brinquei o dia todo e ajudei muito na cozinha – e a cozinha é cheia de surpresas – para já ter muitas aventuras com o livro e você aqui comigo para contar histórias.

– A vida é mesmo boa para nós súditos, né filha?

– Muito boa. A gente pode ser rei, pode ser bobo da corte, pode ser descobridor do Brasil, pode ser gato e até ganso.

– Tudo que quisermos ser, filha, tudo que quisermos…

**

Ontem contei histórias aqui em casa porque em casa de ferreiro o espeto funciona. Uma narrativa com conversinhas deliciosas. Quem fez a festa foi o livro “Sapatos Estragados, Galinhas Falantes e outros mistérios”, uma reunião de contos contados pelas narradoras de histórias: Ana Cretton,  Maria Clara Cavalcanti, Maria Ignez Corrêa e Olivia Dornelles. Com edição de Ana Martins Bergin, selo Rocco do Rio de Janeiro.

Resolvi contar aos meus leitores sobre o livro assim: em diálogo. Contar histórias é uma conversa miudinha que mexe dentro da nossa caixa de ideias e dentro do nosso coração. Uma boa história faz pintar estrelas num céu aparentemente sem jeito de estrelar. Uma boa história faz adulto virar criança, criança virar roda do mundo, e todos nós dançarmos ao som da palavra.

O livro “Sapatos Estragados” serve inteirinho a este bom propósito.

PS. E meus diminutivos são de boa cozinha. Com canela.

 

 

 

 

Foto: sapatos estragados...

 

** Esta coluna é publicada também no Jornal ABCDMaior. Visualize aqui:

http://www.abcdmaior.com.br/noticia_exibir.php?noticia=60277

 

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6 comentários em “– mãe, me conta uma história?

  1. Penélope, obrigada por sua delicadeza narrando a experiência de compartilhar as histórias do Confabulando com sua filha!!! Pra nós foi uma delícia conhecer seu texto. Grande abraço, Ana Cretton

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