as coisas que demoram

 

As crianças andam muito interessadas em coisas dinâmicas, supra interativas, extra plugadas, master onda digital. Nada de mais, nada de mal, não fossem as coisas que demoram…

Hoje estive com os meninos a tentar ler poesias. Na Arca,  uns poemas de Vinícius fizeram bonito (como sempre). Mas a meninada queria correr com os versos e eu disse ‘eta! deixa de pressa, tem coisa que só presta se for demorada’. Eles riram de mim, sempre riem.

As crianças andam interessadas em correr num sei porque nem sei pra onde. Talvez seja medo da espera. Pois eu os fiz esperar um bocado. Arranquei os meus sapatos e joguei para junto da porta. Fiz sinal para uma das crianças que me mandasse seu par. Atirei para junto dos meus. E assim, assim. O menino acelerado demais me disse que ele mesmo ia jogar seus sapatos, mas eu disse para esperar… Esperando ele não quebrava a mágica de ter todos os pés passando pelas minhas mãos. Eles riram de novo.

Depois da leitura, sapatos ao longe e meu livro de cá pra lá, coloquei música para os poemas e os ouvidos persistiram inquietos.

Tinha mais coisa para fazer demorar.

– E aqui um livro que é meu querido, – eu disse, é de quando era criança como vocês.

– Nossa, o livro é velho e tá muito inteirinho? – disse o danado. Eu nem vou comentar meu olha de viés. Eles riram de novo, sempre riem.

Cecília Meireles veio com todos os istos e aquilos, a dúvida que sempre atormenta os corações aflitos. As crianças arregalaram os olhos: mesmo muito chato ter de escolher, não poder estar em dois lugares ao mesmo tempo, não ter luva que permita na mão os anéis, não ser pequeno e poder fazer coisa de gente grande, estudar quando se queria estar zanzando. Tantas coisas.

Ansiedade rói unhas. Demorou, mas percebi porque as crianças andam interessadas em correr. Pudera, tanta  informação chegando mais rápida que pensamento, os plugs, os fones, os wifis, os touch screen, as coisas rápidas com milhares de abas funcionando ao mesmo tempo e todas as palavras gringas que eles insistem em dizer: “isso é que não existe em português!”.

– Existe, existe sim, é que a língua portuguesa é uma coisa que demora e só presta mesmo se for aprendida sem pressa, – digo a eles.

Lá no meio do livro da Cecília, minha amiga de infância (nos livros), busquei um dos meus favoritos poemas – No último andar. Reproduzo aqui para ‘acelerar’ a prosa, embora seja bom que a gente se demore com isso.

 

No último andar é mais bonito:
do último andar se vê o mar.
É lá que eu quero morar.

O último andar é muito longe:
custa-se muito a chegar.
Mas é lá que eu quero morar.

Todo o céu fica a noite inteira
sobre o último andar
É lá que eu quero morar.

Quando faz lua no terraço
fica todo o luar.
É lá que eu quero morar.

Os passarinhos lá se escondem
para ninguém os maltratar:
no último andar.

De lá se avista o mundo inteiro:
tudo parece perto, no ar.
É lá que eu quero morar:

no último andar.

Tentei dizer para as crianças que a vida é boa quando a gente se demora olhando para ela. Tem palavra para isso: contemplação.

Olhar o mar é coisa que demora. Sentir a noite se debruçando sobre o céu, levando a tarde embora, é coisa que demora. Depois as estrelas salpicadas que a gente gostaria de contar: demora demais e é tão bom.

Contemplar requer estar inteiro ali: olhos, nariz, ouvidos, tato e paladar, tudo a serviço daquele precioso momento. A mente quieta, a mente que não deseja outra coisa a não ser que demore, que passe bem devagar.

Marcela olhou para mim e transbordou:

– Como é bonito o poema, Penélope. Preciso de um livro igual ao seu.

No último andar eu não fiquei só. Demos as mãos nas palavras da poeta. A meninada se aquietou um pouco. Um pouco. Que graça tinha ficar lendo assim devagarinho como quem deixa dissolver cada letra na língua?

É que tem coisas que só prestam mesmo se demoram…

Quando eu leio um poema eu me vejo no último andar, tocando o céu com os fios do meu cabelo, sentido os pés no ar. Marcela olhou o livro e pediu para ler outros poemas. Leu, virou, revirou, lembrou da bisavó.

Os outros mais inquietos perguntaram se podiam ir jogar. Eu disse que sim, porque as coisas que demoram chegam de mansinho, não precisam cansar ninguém. Eles riram para mim.

Marcela ficou mais um pouco, depois a vida chamou a todos com seu relógio implacável: plugs do cyber qualquer coisa. Eu até hoje não entendo o que é um aplicativo (embora tudo continue caminhando independentemente da minha larga ignorância nas siglas e nos tais downloads).

Para minha sorte levo comigo meu último andar de onde posso ver o mar. Lá as coisas se demoram, lá onde eu quero morar.

*Em tempo, para crianças e adultos, A Arca de Noé, de Vinícius de Moraes, pela Companhia das Letrinhas; e Ou Isto ou Aquilo, de Cecília Meireles, Editora Global.

 

** Eu já falei aqui dos dois livros, em outros textos, mas achei bom me demorar um pouco mais no assunto. Espero que vocês se juntem à contemplação. E um abraço!

 

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