quero quero

Faz tempo li algo sobre wabi sabi. Originalmente chinesa, esta filosofia começou a moldar hábitos japoneses quando o sacerdote Murata Shukô de Nara (1423-1502) alterou a cerimônia do chá dispensando porcelana, jade e ouro do serviço de mesa em benefício do rústico, instrumentos de argila e madeira.

Cem anos mais tarde, o mestre Rikyû de Quioto (1522-1591) introduziu wabi sabi nos lares dos poderosos com uma casa de chá de porta tão baixa que até mesmo o imperador teria de se curvar para entrar.

Recentemente eu mesma me arrisquei a narrar o conto zen da xícara de chá. Digo que me arrisquei porque não tenho a verdade necessária para compartilhar esta sabedoria. É preciso deixar de comer açúcar para poder ensinar alguém a deixar de fazê-lo, bem registrou Gandhi em um dos seus ensinamentos práticos sobre a busca da sabedoria e da verdade.

No conto da xícara de chá, o Mestre Zen nos ensina que é preciso esvaziar a xícara para receber mais chá. A xícara somos nós mesmos, cheios de convicções, opiniões e julgamentos.

Minha avó costumava dizer que algumas pessoas são ‘saberetas’, sabem de tudo, tem resposta para tudo, não admitem outra possibilidade além de sua própria opinião. Os saberetas são xícaras transbordantes.

A narração de história me permite viver o ensinamento várias vezes. A boca que fala é a minha e os ouvidos mais próximos da boca que fala também são os meus. Sou eu a pessoa que precisa ouvir repetidas vezes, por isso sou eu a contar histórias…

Os assuntos se misturam. Desculpem a falta de jeito que pode aparentar este texto, mas é a vida este imenso mosaico de caquinhos. Olhados um a um, são só caquinhos. Olhados de longe são Universo.

Pois bem, esta semana fui a um seminário de leitura proposto pelo Conversas ao Pé da Página e estive a ouvir Gabriel Pacheco, artista plástico, autor e ilustrador de livros, para saber que ele tinha composto sua carreira a partir de conhecimentos esparsos, fragmentos de saberes. Um ano na escola de arquitetura, um ano estudando filosofia, um pouco disso, outro daquilo. Gabriel estava ali a frente de uma plateia de 800 pessoas – mais ou menos – dizendo que ele não tinha base acadêmica para desenho, nem para design, nem para livros… E por que Gabriel tinha chegado a um trabalho tão primoroso inclusive do ponto de vista técnico? Vislumbrei em Gabriel este Universo composto de pequenos caquinhos, miudezas daqui e dali, uma costura de múltiplas experiências.

Voltei a pensar na xícara de chá e na capacidade que algumas pessoas já possuem de deixar a vida fluir através delas.

Voltei a pensar em wabi sabi, como é necessário nos despirmos de títulos, rótulos e proporções equivocadas de grandeza.

Simplicidade é algo complexo.

Li em algum dos meus livros de filosofia do Yoga que só temos tudo quando nos preenchemos de nada. Os orientais são grandes mestres para nossa confusão mental.

Simples é algo complexo.

O simples não casa bem com nossa vaidade nem satisfaz as demandas de nossa sociedade consumista. Interno e externo, o viver simplesmente se torna o maior de nossos desafios atuais.

Queremos, queremos, queremos. Muitas vezes buscamos nem sabemos o quê, mas a sensação de vazio é enorme e nos devora as entranhas.

Ontem a noite estive com dois amigos. Bastava-nos a conversa, mas a mesa era farta. Minha amiga – uma das mais belas mulheres sorridentes que já conheci – insistia para que eu comesse. Eu não precisava de mais. Estava satisfeita vendo os dois em trocas de olhares e mãos dadas sobre a mesa.

No meio do papo, Lúcio, que acaba de lançar um livro intitulado ‘Joãozinho Quero-Quero’, teve de conter as lágrimas falando do menino Pinóquio.

– Ele era um boneco marionete que desejava ser humano. – dizia-me, Lúcio. E eu acolhi sua deixa, afinal somos todos bonecos de madeira, articulados de quereres, marionetes do desejo, escravos do que nos é imposto pela própria vaidade.

E para ser humano o que é preciso ser feito?

Eu sei que preciso aprender wabi sabi. Passar por uma porta em que até o mais poderoso dos homens tenha que se curvar. Servir o chá com madeira e argila. Deixar que a vida flua, como a água corre sobre o leito do rio: preenchendo-o e esvaziando-o todas as águas.

 

*Em tempo, o livro do Lúcio Goldfarb composto com seu amigo Pedro Menezes, pode ser encontrado no site da Pólen Editora.

Wabi Sabi tem um título formidável publicado pela Martins Fontes, de autoria de Mark Reibstein e Ed Young.

 

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