a contradição humana

“Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor.
Se hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor.
Eu só errei quando juntei minh’alma a sua,
O sol não pode viver perto da lua.”

Afinal compreende-se o dito ‘os opostos se atraem’ embora se contradigam com a precisão do impreciso, já que no vazio o que é cheio obtém equilíbrio. Ó triste sina de quem filosofina a alma humana nas cordas de uma guitarra.

Se o outro reflete tão bem nossos antagonismos, o que diremos do espelho a refletir inverso a imagem de nós mesmos?

Há muita contradição nesta coisa humana.

“A senhora Agnese – amiga da família – disse-me assim: houve uma altura, ela e o filho só projetavam uma sombra. Explicou-me que esse é um dos sintomas da gravidez.” *

Não saberia o que dizer a esta senhora a douta professora que veio me ensinar que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo. Rá! Gostaria de ver a treta.

Outro dia mesmo fiz a travessura com um grupo de crianças que pacientemente (nem tanto) me escutam em oficinas de criação. Botei o menino de pé na frente de todos e me posicionei atrás. Perguntei sobre nossas alturas e todos foram unânimes em dizer que eu era muito, mais muito, maior do o rapazote. Pois bem. Dei cinco passos atrás e perguntei de novo. O menino crescia ou eu diminuía aos olhos de todos ali, feito passe de mágica.

– Perspectiva, queridos. – foi mesmo o que eu disse. Os pequenos no auge dos oito anitos não compreenderam muito bem o que era perspecquioquê? Enfim, tudo muda na medida em que é de outra maneira observado.

Aprender os teoremas – ditos indecifráveis – das aulas de matemática ou de sua irmã em dificuldade, a física, não é nada quando percebemos os desafios à lógica que compõem o nosso universo conhecido. Mas a celeuma não esgota aí. Dentro das pessoas habitam as maiores contradições.

“Por exemplo: A minha tia gosta muito de PÁSSAROS mas prende-os em gaiolas. É uma pena.” *

Logo me lembrei de certa ocasião em que eu explicava a alguns membros de minha família meu interesse pela poesia. Houve quem de pronto me fizesse deprimida e quase já receitava uns comprimidos que acabassem com minha dor. Insisti dizer que a poesia mesmo triste me faz alegre.

– Tadinha dela, tão nova e tão baixo astral. – certamente seguiram-se comentários.

Quer ver uma coisa mesmo estranha? Os segredos. Quando contamos algo em segredo para alguém, automaticamente desejamos contar a outra pessoa. O mesmo acontece com quem ouviu nosso segredo. Parece que o contraditório é o elemento que compõe nossa viva carne.

No amor também não é diferente. Quando “João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém”, ninguém esperava que João fosse aos Estados Unidos e que Teresa partisse ao convento. Nem digo o que aconteceu ao resto da quadrilha juntando gente que nem fazia parte da história – com especial permissão do senhor poeta Drummond que também devia ter das suas grandes e pequenas contradições.

Minha filha mesmo me pegou um dia quando questionou minha supra autoridade nutricional na recomendação de leite como bebida fundamental para saúde dos ossos. Ela me disse com ar de quem está com a mão na cintura: – mãe, então por que você não toma leite? Hein?

– Toma logo isto e encerra a conversa.

Tem vezes que é melhor passar a página.

O escritor que é ilustrador que é músico que é poeta que é cantor que é português mas que pelo sobrenome Cruz talvez tenha certo parentesco com a atriz Penélope espanhola que não é a mesma Penélope que escreve esta coluna – ufa, Afonso Cruz nos convida a um passeio em A CONTRADIÇÃO HUMANA.

Um livro catalogado em Literatura para Infância embora sirva de bom contraditório exemplo para ingresso em bibliotecas de qualquer idade.

Publicado pela editora Caminho de Portugal, o livro recebeu o selo da Peirópolis de São Paulo e pode ser facilmente encontrado no Brasil.

Afonso Cruz passeia pelas contradições sem chatear o leitor com fórmulas mágicas para solução de conflitos. Ao contrário. É um livro que nos faz rir de nós mesmos, faz perguntar em silêncio, faz barulho dentro da gente.

Em aspas e marcadas com asterisco, fiz menção a duas frases do livro. Também fiz questão de transcrever um trecho do samba de Nelson Cavaquinho que inspirou a banda The Soaked Lamb a contrapor o amor em espinho e flor. A banda também conta com o trabalho musical de Afonso Cruz.

Deixa-me tão melancólica esta canção. Gosto muito.

* Toda quinta-feira esta coluna é também publicada pelo Jornal ABCDMaior.

Acompanhe as notícias: http://www.abcdmaior.com.br/noticia_exibir.php?noticia=58966

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