não fosse assim, seria de outro jeito. o outro jeito era bom que não fosse assim.

hoje é primeiro de maio. na rua tudo está calmo, não há carros congestionando as ruas. as portas do comércio estão fechadas. os bancos silenciaram. lá no meio da praça dos três poderes não se escuta som algum além do arrulho das pombas. há imensas legiões desses pássaros ciscando as calçadas.

o povo na cidade não está. hoje é primeiro de maio e as tevês estão ligadas nas casas. não há pressa alguma.

deus lhe pague. hoje é feriado e isso é tão bom para nossa gente que anda tão cansada.

hoje é primeiro de maio. os carteiros deixaram a bolsa de lado e não haverá entrega de contas nem de avisos. o botequim da esquina que ajunta aqueles conhecidos senhores aposentados do meu bairro, também está calado. até aquele mercadinho da rede de hipermercados, que veio usurpar os lucros da quitanda da japonesa, fechou suas portas porque hoje é primeiro de maio.

as crianças na cidade não estão. hoje é primeiro de maio e o almoço será sanduíche para botar a mãe fora da cozinha.

hoje nem há parque porque o céu está fechado e as nuvens sopram um vento impiedoso. também não há quem queira levar os meninos ao parque porque hoje é feriado e isso é tão bom para nossa gente que anda tão cansada. deus lhe pague.

fosse na minha época de criança, a vitrola estaria trabalhando com aquele disco que cantava tijolos engasgados no corpo de uma construção. mas hoje não. hoje é feriado e a paz irá nos redimir.

talvez porque me preencha o saudosismo, vou a internet sacar um vídeo que leia meu primeiro de maio.

 

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

mesmo na minha incapacidade pueril, naquele tempo eu compreendia algo dos versos doloridos de Chico Buarque.

compreendia um pouco do descaso, um pouco da ingenuidade, um pouco da promessa não cumprida. escutava inúmeras vezes a canção seguida das outras. pensava a vida a passar tão apressada – e como era bom saber esperar só o necessário.

pedro pedreiro penseiro esperando o trem, embora dotada de um ritmo simpático não afastava de mim a angústia. na minha casa a mãe trabalhava, o pai trabalhava e tínhamos os cuidados de uma mulher que abandonou a família para buscar sustento na cidade grande de são paulo (e eu nem sabia quão grande era). eu me perguntava se os dias na minha casa também se passavam contando as horas pra voltar pro norte.

mas pra que sonhar se dá um desespero de esperar demais?

hoje é primeiro de maio e eu me pergunto porque as nossas crianças não leem as velhas canções ao invés de ficarem sentadas na frente da tevê esperando, esperando, esperando…

 

Construção é um álbum do cantor e compositor brasileiro Chico Buarque datado de 1971. As canções carregam pesadas críticas ao regime militar vigente no Brasil naquela época. A faixa título conta a história do trabalhador que consagra no trabalho a própria morte. Há uma presença constante nas letras de um chamado de atenção para a indignante rotina do povo, traduzida num alarde para a necessidade de pensar e romper com esse ciclo.

Odette de Barros Mott, inspirada na canção Pedro Pedreiro, escreveu obra com mesmo título para contar as agruras de um trabalhador lutando pela sobrevivência na cidade grande. O livro atualmente está na sua 15ª edição pela Atual Editora, de São Paulo. Odette deu grande contribuição para a literatura juvenil trabalhando temáticas realistas.

Em 2013, o artista plástico Fernando Vilela transformou a canção Pedro Pedreiro em livro ilustrado, com interpretação própria dos versos de Chico Buarque. O livro foi publicado pela editora Casa da Palavra, do Rio de Janeiro.

 

 

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