criança

fotografia Rodrigo Ferrão

naquela tarde sentei-me à beira-rio
a atirar pedras.
em cada splash
olhava os anéis de água
até perder de vista.

e depois pensei
com os meus botões…
será que os peixinhos fazem surf
naquela mini onda?
e a pedra?
será que derruba os castelos encantados
do fundo do rio?

se o homem anda de carro para perpetuar a preguiça,
ali debaixo como será?
se no céu voam os aviões,
então as folhas caídas transportam os peixes à lua.
à lua deles.
a lua que brilha nas noites
e é reflexo da nossa.

de repente quero ser astronauta.
deste e de outros mundos.

naquela tarde sentei-me ali
e vi meu reflexo espelhado.
não tenho barba
nem brancas.
não tenho o remorso do passado
nem o medo do futuro.
nunca trabalhei
nem sei a força precisa para carregar
sacos de batatas.

tenho medo de monstros
que se escondem no escuro.
ainda pergunto
o que acontece aos mortos.

os dias mais quentes
são os dos abraços…
dos abraços de minha mãe.

sou ser fraco de músculos,
forte em brincadeira.
tenho a energia de cem velhos
e a rapidez de mil caranguejos
(dos que se escondem a correr nas rochas).

naquela tarde imaginei
e fiz fantasia.
brinquei como sei
e como posso.

e tudo isto porque sou o que sou.

sou apenas criança.

 

– Rodrigo Ferrão –

 

* o “eu poético” é publicado no Clube de Leitores pelo poeta colaborador Rodrigo Ferrão. O Clube é nossa ponte com Portugal, conexão ‘Ora, Pois!”  toda quarta-feira aqui no Toda Hora Tem História.

Acompanhe também: www.blogclubedeleitores.com

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