Sete Orelhas

“Nestes versos tão singelos
Minha bela, meu amor
Prá você quero contar
O meu sofrer e a minha dor
Eu sou como um sabiá
Que quando canta é só tristeza
Desde o galho onde ele está

Nesta viola canto e gemo de verdade
Cada toada representa uma saudade”

 

 

Na cozinha da casa o cheiro de café sendo passado pelo avô. O vapor reluz nos prismas da janela, frente a pia. O piso frio de cerâmica rústica é bem limpo e no centro da cozinha, uma mesa imensa denuncia a numerosa família.

Acompanha o avô, nas manhãs de café, a viola de Tonico e Tinoco. A música é aquela do Tristeza do Jeca, triste que só ela, uma letra que o cantador que chora seus versos para a mulher amada. Dói inté o coração.  Meu avô se vira para mim e diz, “escuta aí essa moda que é linda demais. Tonico e Tinoco”. Eu nunca mais poderia esquecer. Até hoje escuto o Jeca, canto e choro, ‘um choro que que vai caindo, devagar vai se sumindo, como as água vão pro mar.”

Meu avô era um homem das Minas. Um homem bruto, não soube dar carinho aos filhos nem compreensão à esposa. Em compensação foi bom avô. Ligava o rádio, pedia para eu sentar ali do lado. Eu sentava para ouvir porque eu achava que ele queria mesmo dividir alguma coisa. E ele queria. Eu ouvia e dizia, “nossa avô, isso é muito triste”; ele respondia que era mesmo, que o caboclo sofre muito. Eu não sabia direito o que era caboclo nem matuto que o avô também, eu achava que eu não era matuto porque eu não atravessava boiada no meio do sertão nem morava numa casinha cercada de pirilampos. O fato é que cresci com empatia pelo caboclo, matutando essas coisas da vida, reconhecendo o som da viola caipira linda, linda.

Semana passada chegou às minhas mãos um livro nomeado Sete Orelhas. Não conheço a autora, mas logo nas primeiras páginas identifiquei nela aquele ar matuto que me contava o avô…

 

“Antonio Garcia, fazendeiro e viúvo, morava com os três filhos na fazenda Campo Formoso,

em Varginha, sul de Minas Gerais. Criava os meninos com a ajuda de empregados dedicados.

Vivia em paz. A não ser com o Chico da Silva, o estrupício em pessoa.

Chico da Silva era insaciável.

Invadia as divisas dos vizinhos, usava pasto alheio dizendo ser seu por direito,

brigava  aos oito ventos, mandava recados desaforados aos cinco cantos.”

Não desgarrei mais. Fui até o fim na madrugada escutando os passos do homem no alpendre. Fulo da vida.

Lá pelas voltas do capítulo três o rastro de sangue alardeava qual seria o nosso drama: a vingança de Januário. O beija-flor pardo de cauda cinza pousado na flor do jardim já tinha avisado a ele que haveria desgraça na família. Dito e feito. Quando Januário alcançou o topo do morro, avistou os sete irmãos se afastando a galope. Era tarde…

O que Januário viu ali eu não ouso descrever, mas mesmo desfigurado, seu irmão teve uma cova apropriada para os restos do corpo e um juramento que lhe faria descansar em paz a alma.

Uma narrativa que passeia pelo macabro sem ter de perder a elegância, uma história que remete aos grandes romances do Sertão e ainda se pode ouvir ao fundo as modas de viola daqueles matutos que ganharam o rádio ainda no tempo que o coador de pano ajudava a aromatizar o café.

Uma narrativa que mistura a lágrima da mãe pela desgraça dos filhos com os passos destemidos de um matuto solitário, sofrido e machucado, com palavra empenhada na honra da família.

Uma beleza de história bem escrita que faz a gente sentir orgulho das coisas da nossa terra.

Lá pro final, a autora Silvinha Meirelles nos conduz ao velho impasse: quanto vale uma promessa?

No capítulo 18, Januário largou de ser aquele fazendeiro tímido que tremia nervoso nas ameaças do vizinho. Januário ganhou um ar taciturno, era quase uma sombra. Mas o destino deu uma volta lhe aumentando o pesar.

Januário não me parecia um homem afeito à violência, mas no apego à honra satisfez sua promessa com sangue, fez valer um rosário de sete orelhas…

 

 

* Sábado próximo, 12 de abril, a Editora Ozé convida a todos para lançamento do livro SETE ORELHAS, de Silvinha Meirelles, ilustrações de Tereza Meirelles e arte de Nina Meirelles.

 

 

 

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2 comentários em “Sete Orelhas

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