PEDAGOGIA DO BRASIL MARGINAL

Nascido em São Paulo em 1986, Daniel Rodrigues Hernandez também andarilhou por Jaguariaíva, Paraná; Ilha Comprida, litoral sul de São Paulo e Embu das Artes. Mas é em Sampa das Onze que sua morada se fez na zona sul, Jardim Ângela, na luta enquanto militante da Cultura, Arte e Educação. Daniel é Pedagogo e Mestre em Linguagem e Educação pela Faculdade de Educação – FEUSP. Está há 12 anos nessa luta e faz de cada dia um novo horizonte de resistência e de relações intertransculturais.

Conheci Daniel por força do meu vínculo com as Fábricas de Cultura, justamente pelo lançamento do seu livro “Pedagogia do Brasil Marginal”. O título de pronto me arrebatou: o que seria essa marginália a qual Daniel se referia? Tive a impressão que ele estava falando de  raízes e elementos essenciais da nossa cultura como são as tradições afro-indígena, que até hoje são tratadas como valores de segunda, ou terceira, grandeza.

Fui buscar no próprio autor um pouco da sua pesquisa para dizer aqui, mas antes gostaria de dizer que no meu processo de conhecimento foi absolutamente essencial ser filha de um aglomerado diversificado. Meu pai, um homem de aldeia, minha mãe, uma mulher de periferia, meu avô lavrador, minha avó costureira. Depois veio para minha casa duas amáveis maínhas – minhas mamães baianas, Zezé e Terezinha, duas  mulheres coragem que atravessaram sertão e cidade para trabalhar em casa de família agregando em nós os valores do afeto, do trabalho, da simplicidade, do pé na terra. Cresci com as histórias dessa gente toda. Gente sem riqueza material, sem diploma, sem título social. Gente de toda origem étnica.  Formei em mim santuários para Iemanjá e Nossa Senhora. Coube dentro da minha cabeça a investigação filosófica e o respeito ao desconhecido, ao mágico, ao imaginário. Este foi o melhor dos legados.

Por isso tudo, fiquei mais feliz ainda com o entusiasmo de Daniel Hernandez em revelar nossa marginal realeza.

“A tessitura do livro Pedagogia do Brasil começou com minha participação na atividade proposta pela Biblioteca da Fábrica de Cultura do Jardim São Luís, intitulada “Funk: Criminalização, Criação e Resistência” com Adriana Faccina, da UFRJ. Compreender as origens do movimento funk no Brasil e no mundo me remeteu a um universo magistral em que a cultura periférica ganha clarividência. Cheguei em casa ávido por formular uma tese sobre o tema e me coloquei à leitura da obra “A Formação dos Sujeitos Periféricos: Cultura e Política na Periferia de São Paulo”, de Tiarajú Pablo D’Andrea, integrante do grupo de teatro Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes, com sede na zona leste de São Paulo.  Evidenciou-se a necessidade de resgatar minhas origens e escrever algo voltado para a Educação, que é onde surgiu o conceito de Pedagogia Marginal.

A Pedagogia Marginal é, pois, a interligação de nosso público com o conhecimento à margem do que nos foi introjetado de que somos periféricos, de que não temos futuro, de uma consciência colonizada que nos leva a entender de que nada da nossa cultura tem valor.

Nos colocamos à margem como o movimento da Literatura Marginal, mas aqui é a Pedagogia que ganha voz, são relações multiculturais que ganham novas nuances e que vão se consolidando como a construção de um movimento educativo muito bem estruturado em suas bases. É a voz do oprimido tendo vez e ressoando por toda a sociedade.

A Pedagogia Marginal se constitui através do legado que nossos ancestrais nos legaram de luta e de resistência. É a cultura negra e indígena pedindo espaço. É a favela pedindo passagem. Somos sujeitos marginais e periféricos. Mas a pobreza só é material, dada a expropriação do capitalismo e do neoliberalismo, pois de espírito, alma, cultura e arte a nossa riqueza é incomensurável. Faltava uma Pedagogia que sistematizasse todo esse anseio.

É a Pedagogia Marginal que é o sustentáculo desse movimento. É a síntese dessa micro-revolução que vem desde a resistência indígena e quilombola. Hoje a favela apenas reverbera essas vozes que tentaram calar, mas que nunca se silenciaram. Em uma biblioteca – como na Fábrica de Cultura do Jardim São Luís – podemos encontrar a nossa história, e é por isso que essa ação cultural é aqui também compreendida enquanto Pedagogia Marginal.

E é aqui que mandamos um Salve pra Educação! Um Axé à gente que luta! Com as nossas primeiras batidas da indissociabilidade de Cultura e Educação e da premência da Inclusão nas Escolas da Cultura de suas comunidades.

Começamos gritando, pois nossa voz já foi abafada cultural, social e historicamente nesse país e continente latino-americano. É a voz da liberdade que nossos ancestrais tanto lutaram, onde passamos por ditaduras sanguinárias para chegarmos até aqui. Uma Pedagogia Marginal só pode se forjar do legado de uma história de resistência.

Nesse itinerário em que muitos deram suas vidas para que nossa memória fosse mantida, a marginalidade se apresenta como paradigma. A Educação só se traduz como práxis de resgate de nossa ancestralidade. Às margens da sociedade, a pedagogia apresenta outros vieses, transcendendo o que na mídia se vê de crise da escola pública. Há luta no cotidiano escolar. E onde há luta, há esperança. A Pedagogia Marginal se apresenta como possibilidade de caminhada que sintetiza as nuances da resistência.

Trataremos aqui de uma possibilidade sistemática de problematizar nossa realidade a fim de traduzirmos os anseios de nossas comunidades. A marginalização apresenta-se aqui como fenômeno histórico-cultural de uma sociedade discriminatória e desigual que foi fundada numa colonização exploratória que fundou violentamente um Estado coercivo e impositivo na aculturação, marginalizando as raízes culturais dos nativos que encontraram aqui.

Por se tratar de um diálogo nossa matriz étnica na composição desse livro é indígena e quilombola. É o resgate ancestral da base de nossa cultura. Temos a Lei Nº 11.645, promulgada pelo governo federal, em 10 de Março de 2008, que concebe sobre a obrigatoriedade do Ensino da Cultura Afro-Brasileira e Indígena. Está aí uma legislação oriunda da luta, mas ainda pouco difundida em nossas escolas.

Batem os tambores para resgatar nossas culturas tradicionais. Relegaram a índios e negros um espaço subalterno em nossa sociedade. Mas estamos aí nas escolas, nas ruas, nas empresas, nos espaços públicos, lutando para estar presente em todos os territórios. Não somos poucos. E é na luta que se constitui a nossa identidade.

E isso se traduz no teatro, no Hip-Hop, no Rap, na dança, na música e outras manifestações populares e tradicionais que resistem no cotidiano marginalizado. E a escola muitas vezes nega essas manifestações artístico-culturais das comunidades em que estão inseridas.

Esse é apenas um diálogo com professores e professoras, alunos e alunas, e pessoas que se preocupam com a Educação. Mas foi dialogando que muito se conseguiu na História. Revoluções nasceram de debate de ideias e conversações que nortearam a transformação de nossa realidade. Que essas palavras ecoem e ressoem em suas existências para lutar por uma educação digna que seja Marginal porque nossa identidade é de marginais em resistência há mais de 500 anos. Assim construímos nossa história: na luta e na dialogicidade. Sejamos cúmplices e companheiros sempre!”

PEDAGOGIA DO BRASIL MARGINAL, de Daniel Rodrigues Hernandez, Editora

Link: Multifoco.http://www.editoramultifoco.com.br/literatura-loja-detalhe.php?idLivro=1564&idProduto=1596

 

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