Arco-íris em preto e branco

 

- ilustrações de Suppa -
– ilustrações de Suppa –

Começamos bem a nossa leitura. “O sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo.” Atribuída a Churchill a abertura da narrativa de Isadora, já dá para notar que iremos além da aparência dessa menina comum, normal, sem grandes atrativos físicos e com imenso apetite para bolo de chocolate – como se isso fosse desvantagem, enfim.

Adolescente no auge dos quinze anos com explosões cósmicas de hormônios, Isadora nos transporta para os sentimentos que ocupam esta fase magnífica e trágica da vida sem esquecer a acidez do humor de uma garota pensante.

O cotidiano  de Isadora não é nada diferente de tantos outros cotidianos adolescentes. Escola, casa, amigos, indecisões na frente do guarda-roupa, espinhas, chateações e empolgações como se a vida fosse montanha russa.  Então não cabe falar demais do cotidiano que é rotina e todo mundo sabe. O que faz a leitura  de Isadora é justamente a forma como este cotidiano desperta suas impressões.

” Não sou eu que tenho problemas com a minha aparência: são os outros!”

Isadora nos conduz pelo seu universo em breves capítulos que são apresentados sempre com uma frase de um escritor, filósofo, personagem de filme, amiga de colégio ou dela mesma. Não se trata, portanto, de ser SÓ uma adolescente com espinhas a explodir e mochila estirada pelo meio das coisas. Isadora é alguém que tem sua vida relacionada com o mundo que lê, assiste, conversa, observa, olha, espia, escuta, ri e chora e, muito provavelmente seja por causa disso que Isadora consegue rir de si mesma.

Sobre rir de si mesmo, tenho eu um apontamento juvenil: lá pelos quinze anos eu saí da magreza para um corpo que eu nem sabia como tinha acontecido tão rápido. Ok, era melhor daquele jeito porque antes eu era um vara-pau (para quem souber o que é isso). Muita gente me achava bonita e eu até tinha uns dias de alta confiança no meu potencial. Mas o espelho cruel não deixava escapar os dentes cravejados de metal ortodôntico, nem os cabelos escorridos que não tinham charme algum – nem presilha, porque neles não paravam. Além disso (e mais), confesso meu mau gosto excessivo com uso de calças de moletom. Ok, fizemos aqui a terapia em grupo, mas, MAS, minha grande vantagem era poder rir de mim mesma. Digo vantagem porque a vida também traz uma lista de desvantagens pelas quais passaremos, com querer ou sem querer. Se passar pela desvantagem e conseguir rir, já tem vantagem. E isso não tem nada a ver com livro de auto-ajuda, tá mais para filosofia de papo de calçada.

Em Arco-íris em preto e branco, a autora Nara Vidal, com a voz da personagem Isadora, nos conduz pela vida que e certa forma muitos de nós tivemos e é por isso que o livro é tão fácil de devorar. Não se trata de um romance juvenil piegas e nem de um diário para ensinar alguma lição de moral que pudesse ser importante para esse leitor em formação (ai, que tédio). Não, não se trata. Ao contrário, Nara Vidal consegue convencer seu leitor que ela é Isadora e que a vida está acontecendo e que no mínimo ela deve se manifestar a respeito. Nem que seja comendo uma enorme fatia de bolo de chocolate para aplacar o desânimo.

No correr da narrativa, o preto e branco se colore. Trabalho de ilustração impecável de Suppa, uma artista que compreende bem essa irreverência de Isadora , deposita um humor sagaz no traço, torna a leitura mais realista e dinâmica.

Na coisa de ir do preto e branco para o colorido, a narrativa de Nara Vidal também se encontra. O percurso de Isadora se aquece a medida em que ela consegue que o leitor vista sua pele, ande pelos seus passos, sinta como pode ser embaraçoso viver quem se é.

Lá pelo Capítulo 14, o leitor pode sentir que a coisa vai virar repentinamente com a citação de célebre frase da nossa sabedoria popular a inaugurar a página:

“Nunca namore no portão. O Amor é cego, mas o vizinho não.”

Mais uma vez consegue a autora dar a volta no leitor e esmiuçar um romance que nem romance é, embora seja. Confuso? Ora, quem não se sente confuso com a paixão? Nem mesmo os sábios de cabeça branca escapam desse frio na boca do estômago. Quando vem, já foi. Ai…

Perguntei a Nara Vidal o que acontecia com ela lá pelos 15 anos e ela reforçou primeiro os cabelos horríveis. A adolescência é um caroço de manga, todavia, há a tal vantagem sobre a desvantagem no perceber que é necessário se apressar a viver bem e pensar que cada dia, por si só, é uma vida, parafraseando Sêneca nas citações de Isadora.

 

nara2O livro “Arco-íris em preto e branco”, de Nara Vidal com ilustrações de Suppa, está disponível com selo da Editora Dimensão, de Minas Gerais, recomendado (por mim mesma) para qualquer adolescente de 8 a 137 anos, sendo que antes disso é bobagem porque não deu tempo de ouvir Beatles no carro mascando chicletes (espero que ninguém ofereça chicletes para menores de 8 anos).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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