filosofando com Eros e Psiquê

Filosofia. Acho que tenho dose insensata de humor,  num sei – quem sabe?, quando falo filosofia lembro do “fi-lo porque qui-lo”. Poxa, mas não deixa de ser filosófica a frase, afinal de contas os quereres geram todas as confusões (e as delícias) desse mundo. No mais, a colocação pronominal é tão complicada quanto a filosofia.

Do fiz porque quis nasce a beleza da responsabilidade de autoria assumida. Sim, eu sei que muitas vezes o fiz porque quis é com puro egoísmo, mas mesmo o egoísta pode ser um autor assumido.

Curioso é que quando alguém faz algo admirável e desperta a atenção das pessoas por isso, logo grita “Olha, fui eu quem criou a maravilha”. Muitas vezes nem é tão maravilhoso assim, mas deixe estar, porque o sujeito está orgulhoso e deve ter seu dia de glória.  Há, inclusive, quem se aproprie de obra boa alheia só para aumentar sua própria popularidade. Isso é vexame. Coisa feia que é mentir (sua mãe não ensinou isso não?). Tão ruim quanto aquele que faz a coisa de acordo com a sua vontade e a coisa desanda, prejudica, esbarra com violência no outro e o autor, aquele que fez porque estava amarradão na ideia, some, assobia, sai andando, finge que não é com ele…

Honre suas calças ou saias ou pantalonas etc, meu bem! Fez porque quis, agora assume que o filho é seu.

Responsabilidade. Fiz, quis e se deu errado é porque o acerto acontece depois de sucessivos erros.

Como nos tornamos responsáveis? Difícil tarefa para nós mesmos piora quando estamos ‘aptos’ a ensinar qualquer um (se já com a gente não funciona o tempo todo).

Dia desses um amigo publicou uma imagem no seu perfil de facebook. Uma ilustração com a beleza  da cerâmica escura e alaranjada nos ornamentos gregos chamou minha atenção. Carrego comigo o bom fardo de um nome mitológico e tudo quanto é mito me interessa. Tenho em mim o registro dos grandes épicos, das travessias árduas, das lágrimas derramadas, da gana de alcançar o mérito da redenção, da investigação da vontade. É trágico ser afeiçoado ao mito, eu sei, mas a tragédia é irmã gêmea da comédia – o que nos salva.

A imagem publicada se referia ao romance de Eros e Psiquê. Para quem não teve tempo de se inteirar sobre o assunto, Eros é o deus do amor, por isso ele é irresistível aos olhos de qualquer mortal. Platão descreveu Eros como ardiloso, encantador poderoso, sofista, filósofo o tempo todo. Psiquê era nada perto dele, não fosse sua indizível beleza que despertava a cobiça dos homens e a inveja das mulheres.

Conta a lenda que Afrodite se enciumou da mortal quando ela ainda era menina. O povo de seu reino passou a render graças a menina como se ela fosse uma deusa. Afrodite, senhora dos nossos olhos, deusa soberana de tudo que há de mais belo, detestou aquela infâmia e praguejou a menina logo de cara.

Infelicidade da mãe que pragueja, pois Eros, filho de Afrodite, se apaixonou por Psiquê. Logo ele, o irresistível…

Não vem ao caso agora a razão de todas as mazelas, mas Psiquê foi condenada a casar com um monstro terrível e Eros tramou com Zéfiro, seu amigo, deus dos ventos, para que a garota fosse levada ao seu palácio. Sem saber quem era seu marido, Psiquê foi tratada como a mais digna das rainhas, com todos os mimos, paparicos, vestidos, rendas e banquetes. Mas o marido só chegava a noite e permanecia junto dela sem ser visto completamente.

Só queria saber o porquê de tanto mistério. Consultei meu amigo, ilustrador do livro, Marco Antonio Godoy e ele me disse que “a beleza as vezes é um fardo. Todo grande atrativo é um fardo”.

Talvez o que Eros mais desejasse era viver a experiência ‘pequeno príncipe’, do essencial invisível aos olhos. Talvez. Mister lembrar as palavras de Platão, é o amor ardiloso, sempre astuto planejador de todas as circunstâncias, faz arder até a última língua flamejante para morrer e depois viver de novo.

As histórias são rios a correr para o mesmo mar. Na filosofia há este mar de investigação dos quereres.

Apresentando as histórias com diálogos, Luís Dill atravessa com Psiquê o fardo da beleza e a experiência do amor. Junto com eles, em mergulhos filosóficos por diversas culturas, Platão tem seu mito da caverna adaptado por Glaucia Lewicki em “Uma Luz na Escuridão”, o jovem corajoso que enfrentou a fúria dos Titãs encontra voz na “A jornada Heróica de Perseu” recontada por Adriano Messias, a lenda indígena que separa noite e dia se dá em “O Coco que Guardava a Noite” na voz de Eliane Potiguara, e toda a força feminina da África deságua em “A Dona do Fogo e da Água” narrada por Celso Cisto.

A Coleção de Filosofia para Crianças foi organizada por Branca Jurema Ponce, Alexandre Saul e Lenita Ponce. O objetivo é desencadear uma reflexão, uma indagação, um espanto diante da vida no jovem leitor, para que ele não corra o risco de ver o mundo como uma simples evidência.

A iniciativa ganhou força para o diálogo com os ilustradores porque cada um deles explorou a narrativa com uma técnica diferente e um caminho próprio. Marco Antonio Godoy dá cor ao romance de Eros e Psiquê, Rubem Filho aquece a paisagem para a Dona do Fogo, Suryara Bernardi coloca cheiro de chuva no Coco que Guardava a Noite, Edu Cardoso brinca de luz e sombra com Platão, Manny Clark torna Perseu mais corajoso que qualquer herói dos quadrinhos.

A Editora Mundo Mirim apresenta a coleção e convida os leitores a pensar na filosofia não como um bicho de sete cabeças, mas como um conjunto de histórias a ser contado ao redor da fogueira.

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