Dondila e Jurema

O poder da bactéria, quem vai dizer que desconhece?

Tão minusculina, tão imperceptível, tão mega-atômica. É da bactéria, o ditado “a união faz a força” e não há quem possa contradizer o talento que ela tem para transformar um em milhão.

Teimosia ou persistência? No caso da bactéria parece que persistência é palavra de ordem. Ela se instaura e resiste. Se lutarem contra ela, ela se apresenta com uma grande colônia. Agora, se o ambiente é propício para ela, perseverança total até aniquilação.

Mas bactéria sabe perder a guerra; se não cabe mais no lugar, ela vai embora. Bactéria não é teimosa, é persistente.

Outros pequenos, não tão minúsculos quanto às bactérias, mas com mesmo grau de insistência, sabem bem o valor da palavra teimosia. Você diz ‘faz’, eles não fazem. Você diz ‘é preciso’, eles não escutam. Você diz ‘é bom para sua saúde’, eles não estão nem aí. Você manda para o banho e eles se atiram na cama com roupa suja e tudo.

Estou falando das crianças. Sim, pequenos teimosos mais jogo duro do que muitas das bactérias. Eu comparei as crianças com as bactérias? Que horror! Horror nada, eu sou em menor número com as crianças aqui em casa –  ainda não inventaram penicilina para teimosia de filho.

Quando eu era pequena, bem me lembro, minha mãe apelava: “O homem do saco vem aí para pegar criança teimosa que fica zanzando na rua.”. Eita, mãe, isso não é pedagogicamente correto. Não pode colocar medo em criança para que ela compreenda as necessidades básicas da vida cotidiana (falei bonito).

Se minha mãe ler isso aqui vai comentar que não tava nem aí com o pedagogicamente correto, o que ela queria mesmo era tarefa feita e banho tomado. Minha mãe era do time do reforço positivo, “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Teimosia ou persistência? Sendo mãe, vamos chamar de “ordem no caos”.

Criar filhos é antes de tudo superar a teimosia dos filhos  nem que seja com teimosia de mãe. Para isso vale história aterrorizante? Vale. Também vale negociar um passeio no final de semana depois de ganhar 100 estrelinhas no calendário? Vale. As vezes a criatura precisa de uma motivação. Além disso, caros leitores,  para criar filhos é preciso ter uma mente criativa e um bom humor incansável. Considerem isso como meu testemunho – amém.

Felizmente tenho amigas tão loucas quanto eu (com todo o respeito, minhas queridas) que compartilham a opinião.

Imagine só quando o bichinho filho não escova os dentes e a mãe até apela para o efeito “você vai ficar banguela!”; mas o filho nem tem dó: “vou ficar igual minha avó”.

Superando toda expectativa de amiga louca de mãe louca, Karin Krogh escreveu uma história juntando seu bom humor com amplo conhecimento técnico em Farmácia, Biologia, Odontologia Pediátrica e travessuras bacterianas. Poder da bactéria? Deixa estar, que Karin botou jeito nisso com requintes de crueldade, opa, sagacidade científica. Incluindo visita ao consultório com motorzinho de dentista… Ui.

E a criança leitora já começa a desenvolver repertório para as aulas de ciência…

Mãe é mãe. Isso não é um ditado, é uma máxima. Karin Krogh sabe bem o que é isso. Cientista de carreira, Karin largou o microscópio pela literatura, trabalha com ações de mediação de leitura e estreia com primeiro livro que combina crianças teimosas (isso é pleonasmo), bom humor e políticas privadas de interação familiar fora da curva do pedagogicamente correto. Ótimo começo, Karin!

Dondila e Jurema, retrata a amizade de uma menina pouco interessada em higiene bucal com uma bactéria recém chegada a sua boca. No começo a bactéria é tão divertida, amiga para toda hora. Depois a coisa descamba. Dondila com um inchaço de doer tem que correr ao Doutor Gengisvaldo.

Detalhe: adoro os nomes dos personagens. Karin consegue contar a história escrita com a mesma sonoridade da narração oral. É para ler em voz alta.

E Dondila aprende a lição? Claro que não! Já viu história convencer filho de uma única vez? A teimosia deles é mais teimosa do que a água mole em pedra dura, mas a gente que é mãe não pode deixar transparecer. Ao menos não de uma vez.

Será que contei o final do livro? Xiii, a autora vai ficar uma fera.

O que interessa perceber é o caminho da história nas relações humanas. Karin Krogh retrata a convivência entre pais e filhos durante uma questão recorrente de higiene. O embate da menina com a bactéria é um motivo para imaginar, para pensar no “e se fosse assim”.

Nas relações humanas criar possibilidades para pensar é como dar de beber a sede num rio de água corrente, água sempre nova, água sempre fresca.

As crianças são desafiadoras sim, tanto mais se forem estimuladas a pensar além do quadradinho… Mas já pensou como seria o mundo de gente crescida com esse estímulo.

Por isso, salve Dondila e Jurema, estreia literária da louca-cientista-mãe-narradora de histórias Karin Krogh: as bactérias terão que se render ao Doutor Gengisvaldo e as crianças se entregarão ao riso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s