O Rouxinol e O Imperador em Cordel

Lembro certa vez uma metáfora que falava da atitude que devemos ter para com o mundo, sermos hóspedes do tempo aptos a usufruir de tudo que nos cerca mas sem possuir coisa alguma já que o tempo escorre e se encerra.

Há uma história que se passou na velha China, país de lenda e esplendor, onde cantava um rouxinol nos jardins do Imperador… O Imperador desconhecia tal riqueza porque passava os dias ocupado a contar suas moedas de ouro e suas pedras preciosas. Um poeta de bolsos rotos compôs uma canção exaltando o canto do pássaro e seus versos, de tão belos,  foram se espalhando por toda a China até chegar aos ouvidos da Majestade.

“Ao ler o livro tão belo,

Perguntou muito irritado:

‘Mas que rouxinol é esse?’,

Indagou ao seu criado.

‘Majestade, nada sei

Sobre o pássaro encantado.”

O criado, a mando do Imperador, partiu à procura do rouxinol para que ele viesse cantar no palácio. Sem saber aonde procurar o passarinho, o criado desesperado pediu ajuda a uma menina que lhe mostrou o caminho trilhado por ela pela floresta, todas as noites, ao encontro de sua mãe, onde se ouvia o canto daquela ave divina.

“Será o pássaro mesmo?

Tão pequenino e sem cor!

Talvez perdera suas cores

De tanto cantar o amor.

Disse a pequena menina:

‘É o rouxinol cantor’.”

Convidado pelo criado e pela menina, o rouxinol foi ao palácio cantar para Vossa Majestade e se mostrou muito comovido pelo convite de tão nobre figura. E depois de ouvir a ave, o Imperador que tudo podia no mundo, disse que na sua companhia o rouxinol ficaria e só passearia acompanhado de criados, para nunca se cansar e para nunca fugir…

Triste sina do pássaro cantor, pensar que seu trinado tinha virado motivo para viver engaiolado. Para que servem as asas se não se pode voar? Passarinho murchou e já não tinha mais brilho no cantar sem alegria.

Até que um dia o Imperador recebeu de presente um pássaro mecânico cravejado de brilhantes e com lindo trinado, digno de um dueto com o pássaro encantado. A novidade que chegou ao reino, fez esquecer aberta a gaiola do passarinho verdadeiro que partiu para a floresta de onde nunca deveria ter saído.

Não há bem que sempre dure, nem tristeza que não se acabe. Assim como foi nasceu um dia nas mãos de um artesão, o pássaro mecânico morreu gasto de tanto uso. O Imperador que chegou a desmerecer a ave verdadeira em comparação à beleza dos brilhantes que compunham a ave de corda, adoeceu.

“Mal podia respirar

Com a sensação de peso

E um grande mal-estar.

Percebeu que era a morte

Que veio então lhe buscar.”

O que aconteceu depois, eu não conto, não lhe digo, mas só posso afirmar que a sorte do Imperador foi muito maior que seu castigo, afinal o amor não carece de gaiolas de ouro nem de pedras preciosas.

Os versos de cordel  de Nireuda Longobardi citados aqui, contam a história de Hans Christian Andersen, O Rouxinol.

Tecendo versos e imagens, Nireuda presenteia o leitor com o poema cantado e ilustrações que compõe teatro de sombras perfeito para contar histórias da China… O livro é uma brincadeira de palavras a brindar a musicalidade. O cordel retoma o tempo em que os trovadores cantavam poesias, e Nireuda conduziu ao palco seus leitores, compondo ao final do livro o arranjo do texto em teatro com a divisão de falas para todos os personagens. Um mimo!

Os desenhos foram elaborados com a técnica do kiriê, uma arte japonesa e chinesa que consiste em recortar papel usando a lâmina. Kiri é um verbo que significa cortar, e a letra “ê” significa formar um desenho. Predomina o preto no branco, mas Nireuda deposita algumas cores sólidas ao longo do livro que iluminam as rendadas figuras.

O rouxinol e o imperador em cordel, de Nireuda Longobardi,  uma publicação da Editora Mundo Mirim.

No meu exemplar, Nireuda escreveu uma doce dedicatória que diz: “este livro conta a história de um pássaro encantado que leva a alegria a todos através do canto. Assim como você Penélope”. Nireuda conhece meu trabalho como contadora de histórias, por isso a comparação mais do que generosa. Aproveito a coluna de hoje para devolver o carinho e presentear Nireuda e todos vocês que acompanham meus escritos, com a narrativa rimada e com cantigas da boa Coleção Disquinho, amiga ímpar das crianças de antigamente. Voltamos a ser crianças com livros, versos, rimas, desenhos, cores e cantigas. Voltamos a ser criança e somos hóspede do tempo porque agimos com proveito do momento agora.

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