A tabuada da bruxa

Quem disse que deve ser clara a narrativa não compreende a salada mista de que é feita a vida. Tem de tudo para todos os gostos. A gente acorda triste e gargalha no almoço. Deve ser a sobremesa a causa do encantamento, mas não se esqueça que a balança causa desentendimentos… E quem poderá salvar de nós a cruel ruptura? Quando a tristeza aparece vira enigmática toda criatura. Da vida não sabemos nada além de confusa história oblíqua. Quanto mais vivemos, mais longe a compreensão medita. Só há uma certeza da qual me apodero, a vida tem matemática simples, mas simples não é fácil.

 

A tabuada da bruxa começa no 1 e do que é feito o número erguido feito mastro, pilar sobre a terra? O número 1 é o impulso. Precisamos começar algo que seja novo. Lavar a louça parece um tormento, mas os pratos não se liquefazem com o tempo. Levanta, sacode, mexe esse esqueleto: o número 1 está implorando um primeiro passo, uma forcinha para agir, um pé no acelerador.

 

Se o 1 tá feito, logo o 2 aparece. A ação leva ao movimento. Resultado = 2 flutuando livre no lago. Jamais esquecer que a vida é feita dessa magia: faz e receberás! Flutua o pato na lagoa, baila a chama de uma lamparina. São 2, combustão e combustível, ação e reação. O que será que vem depois?

 

O número três coroa reis! Visitam o menino com ouro, incenso e mirra, preparam-no para erguer fortaleza na vida, pois uma casa só nasce em sólida fundação, um quadrado chumbado que pesa do esforço a dor da persistência. O número 4 eleva a discussão para outro nível: só os fortes sobrevivem. Parece papo de lutador de MMA mas não é. A força está no espírito. Isso de pronto me lembra o épico indiano em que o herói consagrado pode pedir o que quiser ao ser mestre e ele só pede fé constante e confiança inabalável. Os pés firmes para a cabeça não cair (ou voar, depende).

 

O 5, ora vejam, está pronta a vela do barco para se curvar ao vento e viajar. É preciso espírito aventureiro para viver, para seguir adiante, para enfrentar tempestades, tormentas, manadas de elefantes e farpas no dedão. Nem só de solidez vive o homem, a fluidez é tão necessária quanto. Saber se lançar numa aventura é o que precisamos para alcançar o número seis.

 

Há um triângulo que aponta para o céu enquanto outro triângulo aponta para a terra. O número seis forma essa estrela. Onde passa a cabeça de um gato, passará seu corpo todo. O número seis já sabe por onde ir, mas não subestime a foice do 7, lâmina cruel, porque se a arrogância aparece a vida dá um jeito de cortar o mal pela raiz.

 

O oito é perpétuo movimento. O que foi começo levará ao novo começo e assim sucessivamente, sucessivamente, sucessivamente, suspira a mente…

 

Experimente construir uma ponte na floresta. Abondone a ponte. A floresta engolirá a ponte, a ponte será floresta e o novo começo será dará verde folha, de novo, de novo, de novo…

 

Engana-se quem deseja o controle de tudo. O movimento é sereno e só respeita a lei do próprio movimento. Engula o choro e deixe de birra. Faz tua parte, irmão e não reclama.

 

Disseram-me uma vez que a vida leva a gente mesmo que a gente não queira ser levado, por isso é melhor agir por si mesmo, pular quando for hora, se molhar quando necessário, sujar as mãos com lama se o caso exigir. Fazer de boa vontade antes que seja tarde e a vida cuide de dar um empurrão. Pronto! De cara no chão.

 

Mexa-se criatura! Não perca a compostura na preguiça e no desleixo. A tabuada da bruxa dita de 1 a 10 o zero como recompensa. E a felicidade será o que? Alguém pode me adiantar? A felicidade será ver que a vida é essa tabuada de ação multiplicada e que não há resultado que se baste porque até o fim das contas deveremos ficar atentos em combate com os números.

 

O detalhe final, a cereja do bolo, algo que lhe sirva de consolo: a ignorância é nosso pior castigo. Não tente caminhos curtos, claros, objetivos. Decifre-me que eu tentarei pelo menos decifrar qual o melhor jeito de equacionarmos o tal ser humano. Se é fácil, desconfie.

 

E do que eu estava falando a final? Ah, do livro ilustrado “A tabuada da bruxa”, um poema retirado do enigmático “Fausto” de Joham Wolfgang von Goethe. O ilustrador Wolf Erlbruch nos conduz pelo caminho matemático traduzindo os números em ações. Tudo muito simbólico, tudo muito escondido. Um mapa do tesouro para achar o ouro já está na mente do leitor, pronto pra ser encontrado. Quem deseja um livro de fácil digestão, melhor ficar longe desse. Mas o livro é sobretudo SIMPLES, e o simples é muito bem elaborado. A Editora é a paulista Cosacnaify.

 

Boas leituras e excelentes multiplicações.

 

 

PS. ou ‘Extra para Curiosos’: meu texto de hoje é dedicado a uma artista elegantemente enigmática, pernambucana de pernas bonitas por demais, cachos morenos que, além de aquarelas, faz baião de dois. Moes, você é o cara. Cadê os editores que não abraçam com fé essa moça? Quem quiser se perder nas linhas de Moes visite o link: Tatiana Moes

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2 comentários em “A tabuada da bruxa

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