A ODALISCA e o elefante

 

“… ela sonha com sereias e dentro dela correm rios. Ele sonha com cotovias e dentro dele arde o sol. Até onde sabemos, nunca se encontraram, mas bubuiam na mesma vertigem. Os começos são sempre inesquecíveis. Depois é que vem a confusão.”

Mas qual o ponto que marca o começo da nossa história se antes ele perambulava livre por um longa e esplêndida infância? E não só. Desatinavam-se nele lembranças de tantas outras histórias, águas que desaguavam no caudaloso rio de sua vida. Uma vida, duas vidas… 999 vidas e outras antes.

Conta a história que uma odalisquinha vivia num harém junto com outras odaliscas aprendendo coisas que toda odalisca deve saber, desde segurar bandejas equilibradas na ponta do nariz até preparar um banho de leite de cabra com pétalas de rosas amarelas. Das coisas úteis que ela aprendia, a única da qual não necessitava orientação de uma amável professora odalisca chefe era a atividade de pensar. Conta a história que uma odalisquinha vivia num harém e que sua cabeça pensava sobre tudo a toda hora mesmo que ela tentasse evitar o pensamento.

Do outro lado da história embora parte indissolúvel da história da odalisca, um elefante branco nascia entre outros elefantes menos valiosos, menos inestimáveis em singularidade. Por isso o temor da mãe elefante. Um ser raro.

O destino se cumpriu e o elefante branco foi caçado como prêmio para servir de presente a um Sultão.

É evidente que aqui as serpentes se entrelaçam e dançam o mais belo tango ou mesmo outra dança de apaixonados, amantes, loucos, lunáticos e gentis. A história da odalisquinha que vivia num harém de um Sultão que foi presenteado com um raro enorme e esplêndido elefante branco pelo qual ela se apaixonou…

Se um elefante branco surpreende um Sultão não se pode olvidar a presença faiscante de uma odalisca pensante com orelhas em forma de concha rosada que poderiam simbolizar a perfeição de toda a criação.

O Sultão era feliz com sua pequena odalisca contadora de histórias, tanto quanto era orgulhoso de ter como presente aquele animal corpulento de radiante brancura. Os começos são sempre inesquecíveis, depois vem a confusão.

Não se poderia acreditar num amor entre uma odalisca e um elefante havendo entre eles um todo poderoso Sultão senhor dono dos dois e pelo qual, somente pelo qual, eles deveriam nutrir apreço e amor. Mas o amor é misterioso.

Os sonhos da memória de elefante revelavam a verdade dos apaixonados enquanto a febre o frio se apoderavam do corpo dela. Já não poderiam evitar.

A odalisca e o elefante.

“Sob o olhar de Leila, o elefante não se moveu. Ele sabia que algo acontecia, sentia uma carícia, uma brisa, uma dúvida. Quando Leila, vencida, fechou os olhos de fora para vê-lo melhor com os olhos de dentro, um estremecimento que começava nas patas dianteiras e corria pelo pescoço, a tromba, a testa, o dorso, para descer devagar pelas coxas traseiras até desaparecer na terra impassível, percorreu-o. Hati sorriu. Já não havia pressa, ela estava ali.”

A autora Pauline Alphen consegue emaranhar seu leitor em longos fios para tecer essa fantástica história, A odalisca e o elefante. Uma história permeada por muitas outras histórias de amores impossíveis, de casais envenenados, de travessias em guerras de heróis que há muito tempo não podem regressar aos braços da pessoa amada. Histórias que povoam o imaginário de toda a gente (mesmo daqueles que acreditam não saber nada d ehistórias de amor).

Numa leitura envolvente pela trama e pela linguagem poética e muito bem humorada, Pauline nos oferece um bocado de tudo, um banquete de tantas boas histórias para recordar ou para conhecer.

A odalisca e o elefante passeia pelo amor de Ulisses e Penélope, Ícaro e Sol, Romeu e Julieta, Tristão e Isolda e mais. A narrativa menciona trechos de outros escritores e poetas nossos, como Cartola e Caetano Veloso, e resgata de nós o melhor dos mundos: a aventura de um começo.

Um livro que devorei em uma hora apaixonante de leitura e que me entusiasmou a a pedir para nossa Sherazade Pauline que conte, conte muito e conte mais sobre a odalisquinha e seu amado Hati, o elefante branco.

Em tempo, para os leitores que cultivam ternura em aventuras épicas: A Odalisca e o Elefante, de Pauline Alphen, editora Companhia das Letras de São Paulo.

Veja também: https://todahoratemhistoria.wordpress.com/2013/11/05/a-odalisca-e-o-elefante-de-pauline-alphen/

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