O REFORMADOR DO MUNDO, de Monteiro Lobato

Américo Pisca-Pisca tinha o hábito de pôr defeito em todas as coisas. O mundo para ele estava errado e a natureza só fazia asneiras.

– Asneiras, Américo?

– Pois então?!… Aqui mesmo, neste pomar, você tem a prova disso. Ali está uma jabuticabeira enorme sustentando frutas pequeninas, e lá adiante vejo uma colossal abóbora presa ao caule duma planta rasteira. Não era lógico que fosse justamente o contrário? Se as coisas tivessem que ser reorganizadas por mim, eu trocaria as bolas, passando as jabuticabas para a aboboreira e as abóboras para a jabuticabeira. Não tenho razão?

Assim discorrendo, Américo provou que tudo estava errado e só ele era capaz de dispor com inteligência o mundo.

 Mas o melhor – concluiu – não é pensar nisto e tirar uma soneca à sombra destas árvores, não acha?

E Pisca-Pisca, pisca-piscando que não acabava mais, estirou-se de papo para cima à sombra da jabuticabeira.

Dormiu. Dormiu e sonhou. Sonhou com o mundo novo, reformado inteirinho pelas suas mãos. Uma beleza!

De repente, no melhor da festa, plaf! Uma jabuticaba cai do galho e lhe acerta em cheio no nariz.

Américo desperta de um pulo; pisca, pisca; medita sobre o caso e reconhece, afinal, que o mundo não era tão mal feito assim. E segue para casa refletindo:

– Que espiga!… Pois não é que se o mundo fosse arrumado por mim a primeira vítima teria sido eu? Eu, Américo Pisca-Pisca, morto pela abóbora por mim posta no lugar da jabuticaba? Hum!

Deixemo-nos de reformas. Fique tudo como está, que está tudo muito bem.

E Pisca-Pisca continuou a piscar pela vida em fora, mas já sem cisma de corrigir a natureza. 

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6 comentários em “O REFORMADOR DO MUNDO, de Monteiro Lobato

      1. hehe mesmo mas nao vou explicar pois n sim claro que é que vai ser ta bom beijos para vc tambem é muito legal menos n entendi ta bjs de novo hehe nossa q engraçada vc perelope ate me lembra bobs ponja a baleia

      2. Penélope, charmosa, bons tempos aqueles em que as crianças liam gibis, livros, especialmente os do Monteiro Lobato. Aprendiam até a escrever, como dita a boa norma da língua portuguesa. Não há segredo nisso: as crianças liam, bem por isso aprendiam. Não é o que vemos nos dias de hoje, quando nossas crianças estão mais afetas às telinhas, escrevendo numa nova e preguiçosa “gramática”, quando nós temos que adivinhar o que tentam expressar. Por exemplo, “vc k eu vou ir lá no fds, bjus”
        Não sei se vale a pena saber qual será o resultado disso que aí está. Aliás, se aí está, já é, pois não?
        Amplexos.

      3. pois é, Roberto, o que aí está, já é e sempre assim foi – eu mesma ganhei o nome Penélope pela tecelã descrita em Homero e nunca escapei da ‘Charmosa’ (risos). um abraço!

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