O monstro que me assusta é o monstro que eu quero

Vai entender a criança, tem medo danado de escuro, não quer ficar sozinha no quarto na hora de dormir, se algum barulho acontece os olhos arregalam procurando saber de onde vem. Vai entender a criança que mesmo com medo de monstro quer de novo o monstro na história. Eu particularmente prefiro histórias de passarinhos, de casinhas no meio do nada, passeios pelo mar com pés descalços a pisar pitangas, uma avó na cadeira de balanço a tricotar…

 

A mãe bem que tentou contar para o filho um conto de varanda, com brisa suave e tons alaranjados que refletem nas asas de um passarinho que é visitante costumeiro da varanda da avó.

 

– Mãe! Não quero ouvir história de passarinho!

 

Retrucou o menino com a curiosidade mostruosa de saber contos de medo, de bocas grandes cheias de dentes afiados, de caudas escamosas, patas com unhas etc.

 

Bom, o jeito foi inventar um monstrengo malvado que inferniza uma pobre avó na hora crepuscular, enquanto a velhinha veste pantufas e tricoteia seu cachecol de florinhas. E agulhas pelos ares quando ele aparece gritando “Búúú”.

 

Um monstrengo malvado que assusta vovozinhas indefesas e sai correndo para a mata, rachando de tanto gargalhar. Onde já se viu? Viu? Vi, e você viu também?

 

O Bicho-Papinha é invenção da autora Paula Browne, uma história para crianças interessadas em monstros, sustos, pantufas e agulhas voadoras, cabelos em pé, gargalhadas maquiavélicas e sopa de vó. A mistura parece esquisita (e é), mas no final todos sobrevivem e se entendem bem.

 

As ilustras de Paula são deliciosas histórias dentro da própria história do livro. Observadas quadro a quadro, as imagens são compostas por pequeninos detalhes que revelam mais de cada personagem, do que fazem; os desenhos que se fundem em traços e provocam sensações surreais. As crianças devem adorar esse labirinto imagético. Eu adoro.

 

Tem uma coisa, a narrativa do livro acontece com a mãe contando história para o filho na hora de dormir e isso – i-me-di-a-ta-men-te – me traz as lembranças das tantas noites que eu ficava junto da cama do meu primeiro filhote, um menino que hoje já calça sapatos tamanho 42 embora ainda tenha 12 aninhos. André, meu filho, aos três anos me pedia histórias de espadas e eu atacava com mosqueteiros porque eu sempre gostei dos clássicos, quando os pedidos eram para monstros eu desenvolvia narrativas mitológicas, mas meu repertório não atingia todos os desejos daquele ouvinte. Eu não sabia nada sobre carros que viram robôs e explodem a cidade inteira, nem sobre bichos fofinhos que batalham e mudam de fase.

 

Por não saber tudo e por amar demais aquela criança com quem eu queria muito me comunicar, eu inventava histórias. Inventei bruxo, inventei coisas fétidas, inventei espadas, inventei o que André gostava de ouvir.

 

No final do livro O Bicho-Papinha, o menino fala para a mãe algo sobre a experiência da mãe ter inventado monstro para ele… Eu ri muito. Acho que André também já pensou assim:

 

– Mãe, você não entende nada do assunto mas é legal você tentar!

 

O Bicho-Papinha faz isso muito bem, começa cantarolando com passarinhos, passa por malvadezas com vovózinhas e termina com a grande descoberta: tudo é sempre novo num relacionamento, sempre existem coisas a descobrir. Os pais descobrem os interesses dos seus pequenos e os filhos descobrem a capacidade de imaginar dos seus pais. Quantas vezes os filhos pedem para que os pais contem histórias que se passaram com eles, algum tombo que doeu muito, alguma bronca que eles levaram das avós, uma nota muito baixa na escola… Nas descobertas, o que é melhor, não há caminho errado, há somente o caminho: um canal aberto ao diálogo e a construção de um espaço comum.

 

Reservo as histórias de passarinhos e quintais de terra batida para meu prazer, colho as rosas das ilustras de Paula Browne (faltava um i para transformar minha amiga autora em bolo de chocolate) e coloco num vaso com água para enfeitar a mesa da sala, deixo a sopa esfriar porque anda fazendo muito calor por esses lados, faço uma cantiga de monstros e outros seres apavorantes da hora de dormir, deixo para os leitores famintos O Bicho-Papinha, da Callis Editora, com palavras e desenhos deliciosos de contar.

 

A cantiga eu escrevi para minha filha Clara que, embora não tenha tanto medo assim de monstro, sempre inventa alguma coisa que justifique sua saída da cama, sua corrida pelo corredor até meu quarto, seus 437 pedidos de coisas da cozinha, seu sono atrasado das nove a meia noite, nosso sono atrasado e nossas olheiras no dia seguinte.

 

A canção escrita por mim foi musicada gostosamente pelo tão amigo parceiro Joel Costa Mar. Espero que cause diversão e gargalhadas: Uahaha!!!

 

 

* Quem quiser saber um pouco mais de O Bicho-Papinha e de Paula Browne, visite a página do Garatujas Fantásticas para ler a entrevista: http://garatujasfantasticas.com/o-bicho-papinha/

 

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