revela-se a paisagem

” Paisagem não é apenas o mundo que se vê: é também a forma como o mundo é visto. Paisagem é o mundo, é ver-o-mundo: a cada olhar, uma nova revelação. Cada revelação se multiplica em novos olhares. Tudo muda na paisagem. O que se acabou de ver, tão logo é visto de forma nova, diferente. A paisagem, a serenidade ou a inquietude do mundo, é a mesma do olhar de quem a contempla.”
– Carlos Fernando Moura Delphim –
fotocelular Pê Martins - Jardim Botânico do Rio de Janeiro - dezembro de 2013
fotocelular Pê Martins – Jardim Botânico do Rio de Janeiro – dezembro de 2013
O meu interesse pela leitura não tem nada a ver com os livros em sentido estrito, mas sim com a paisagem. Estranhamente, há quem descarte a presença humana da paisagem, o que é inconcebível para minha leitura porque as gentes são muitas das vezes toda-a-paisagem que se deseja ver.
Durante uma viagem, uma lista de coisas para ver inclui museus, jardins, esculturas, prédios e casarios, praias, montanhas. Eu sempre me interesso em passar os dias com aquela gente. As gentes mudam rapidamente, enquanto o mar permanece ali batendo na encosta durante séculos e séculos e…
Recordo uma viagem que fiz ao Estado do Piauí, especificamente os dias em que passei em Barra Grande, prainha pequena e desinteressante para muitos. Durante um sesta pós almoço da minha família, resolvi levar caderneta e lápis para uma caminhada na beira do mar. Caminhei durante hora e meia; ninguém. No meio do caminho, avistei um morro, resolvi subir inclinada a descobrir uma aldeia, um grupo de pessoas, alguém com quem se pudesse trocar umas palavrinhas, nem que fosse um “boa tarde”.
Na minha frente: cruzinhas brancas fincadas no chão e uma capelinha. Ninguém para dizer alô, nem bom dia, nem tarde. O som que se ouvia de sussurrar sem dor era do mar. Não importava pensar quem tinha por ali passado, ali vivido, ali ficado, porque tudo era areia e mar, todos iguais.
De frente para o mar e de costas para o que já não estava, lembro claramente de anotar na minha caderneta: o mar estava aqui antes do antes; o mar abriga a memória.
Lembro de ter me emocionado e ido às lágrimas como vou agora.
Fazia-me falta, como ainda faz, os sons das gentes.
De olhos fechados, embriagada de maresia, vi a paisagem: murmurar baixinho de avó tecendo seu bordado, cantiga de mãe embalando o filho, o namorado a dizer que ama, a namorada a dizer que sim, as crianças cirandando e um homem que diz histórias do lugar.
Dentro de mim, a paisagem muda a cada instante de leitura de paisagem.
Ainda ontem, visitei o Sítio Burle Marx, na Cidade do Rio de Janeiro, e em meio àquela exuberância de espécies botânicas, acarinhava meu coração os senhores jardineiros observadores contínuos da mudança na paisagem.
Do passeio ao Sítio trouxe um livro entitulado “Jardins do Rio” com textos de Carlos Fernando Delphim e fotografias de Bruno Veiga e Pepe Schetino, no qual, o próprio Carlos Fernando diz: “a presença humana anima o Rio de Janeiro”.
Eu diria que a presença humana é a própria ânima.
Do passeio ao Sítio trouxe um livro entitulo “Mãos de Jardineiro” com textos por escrever e imagens a revelar, no qual a paisagem é a mão que ampara a folha que cai enquanto os olhos mergulham nos passinhos atentos de uma formiga.
Ler o mundo é tornar possível um ser humano melhor dentro de nós. Por isso mantenho meu interesse por livros, para clarificar minha capacidade de vislumbrar esta grande paisagem.
Em tempo, para interessados em paisagem, publicado pela Atlântica Editora, em 2012, contatoatlanticaeditora@gmail.com, o livro “Jardins do Rio”. Em tempo, para os interessados em mãos de jardineiro, não deixem de visitar o Jardim Botânico e o Sítio Burle Marx no Rio de Janeiro, também Jardim Botânico de São Paulo, boas propostas para respirar e sentir a vida.
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