Janela aberta

Tenho desenvolvido um trabalho de narração de histórias e me sinto particularmente feliz quando vou fazer isto para um público adulto. É tão curioso vislumbrar a tal seriedade que enrijece o gênero humano; todos lá, de olhos escamoteados e braços cruzados (por vezes os ombros altos e recolhidos), esperando passar o tempo, fingindo que aquilo não se passa com eles…

 

Começo a apresentação com um pedido: acionem o botão de imaginar que fica logo atrás da orelha. Não sei se sou atendida naquela reação automática de quem é pego de surpresa por uma maluquice qualquer, ou se me atendem naquelas de “vamos fazer isto logo para não ficar chato para a maluca aí”.

 

Em verdade, todos nós devemos perseguir nossos cliques imaginatórios, porque a realidade racional e crua é muito pouco satisfatória.

 

As tais pequeninas bobagens que podemos inventar para descontrair, como apertar o botão de imaginar, são lembretes sobre a relevância das coisas simples e fantásticas. Por exemplo, quem não se regozija ao abrir um iogurte e lamber a tampinha de papel laminado? Ou, quem é capaz de deitar em uma cama com lençóis recém-lavados e não afundar as narinas naquilo, tão bom que são percebidos os aromas de sabão, amaciante, calor?

 

A vida nos surpreende em coisas pequeninas e demasiado simples.

 

Ao contar uma história, meu único compromisso é desafiar as mentes desconfiadas a perceber a simplicidade como caminho natural para se viver em equilíbrio e conhecer a felicidade.

 

Há (sempre há) aquele sujeito na plateia que prefere manter um ar de ser superior pelo avanço da  idade ou pelos livros lidos e seus colecionados saberes. Mas, quando a história começa, o narrador soma sua voz às impressões de outras pessoas que o acompanham, que completam as frases, que anunciam em gestos e, no desenrolar da trama, a coisa se conta por muitos.

 

De repente estão lá, todos conectados e contaminados de infância.

 

A infância é o tempo das grandes descobertas e isso é o que deve ser mesmo levado a sério. A adultice revela que não há nada a descobrir, nada que surpreenda, nada que faça sentir e vibrar, mexer por dentro. A adultice é típica dos saberetas, chatos, melgas, metidos a besta. E isso não tem nada com a idade, tem sim com o estado de espírito, com a capacidade de sentir e de se manter permeável à vida.

 

Por isso gosto de contar histórias aos adultos, para reacender a porção criança que muitas das vezes está presa dentro do coração, doida para sair a rua. O que eu faço é cutucar a porta, lançar pedrinhas nas janelas, chamar para a brincadeira.

 

Do meio da história em diante, os ombros já estão mais soltos, as mãos e os braços também. A janela se abre um bocadinho, algo novo se cria e podemos seguir acreditando no projeto de humanidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s