A Botija de Ouro

Espera a noite que vem.

 

Depois de tantos dias no castigo, trancada em solitária, a escrava começou a roer a parede. Roeu até ver brilhar algo por dentro dela, uma luz intensa amarela que aumentava na medida em que o objeto era descoberto. Ela tinha achado a botija de ouro encantada e seu feitor descobriria a proeza quando a viesse libertar.

 

Questionada sobre o brilho que vinha da cela, de pronto a escrava respondeu que era uma porção de vagalumes e nisso, envolveu a botija com os panos que dispunha e, liberada do castigo, disse ao algoz que enterraria os bichinhos.

 

Na senzala, a botija fez botar as primeiras moedas de ouro… E depois mais e mais, tantas que seria suficiente para comprar a liberdade de todos os oprimidos.

 

Mais tarde, desconfiado de sua escrava, o feitor veio vasculhar a senzala e levou ao tronco a menina.

 

“Vagalumes, vamos ver”,  e passou mel na escrava para que as formigas da noite lhe viessem morder. Esperou que ela confessasse onde estava a botija de ouro.

 

A noite era longa e tardava a passar. Amarrada ao tronco por dias, a moleca ficava cada vez mais magra, quase já passavam suas mãozinhas pelos elos das correntes.

 

Como se não bastasse, o feitor lambuzava a escrava de mel para que as formigas de barriga listrada comessem ela todinha durante a noite. Mas, em socorro à menina, uma nuvem de pisca-acende vinha iluminar a noite e espantar as formigas.

 

Exausta de andar noites e noites amarrada ao tronco, a moleca confessou onde havia escondido a botija de ouro. Também disse ao Sinhô como fazer para que a botija despejasse moedas de ouro.

 

Deu que o Sinhô alisou a botija e se maravilhou com tantas moedas que dela saiam: sem parar, sem parar, sem parar… A casa da fazenda já afundava e mais moedas o Sinhô ganhava: sem parar, sem parar, sem parar…

 

Um grande buraco se formou ali na fazenda aonde havia a casa do Sinhô e o feitor, aquele que judiava da escrava, ninguém mais soube dele.

 

Os escravos que ficaram sem dono já não podiam ser escravos. A moleca, antes sem nome algum, ganhou o nome ‘a noite chegar’, justamente porque o feitor repetia a ela todas as noites em que ela se recusava entregar a botija, “espere a noite chegar, espere a noite chegar”.

 

A Botija de Ouro, de Joel Rufino dos Santos,  publicada em 1984, é um conto que remete aos tempos da escravidão e recria fantasticamente o que se passava naquele tempo de noites que tardavam passar.

 

Joel Rufino dos Santos, nascido no Rio de Janeiro, em 1941, é professor e escritor brasileiro, um dos nomes mais importantes para cultura africana no nosso país. Nascido no bairro de Cascadura, Joel Rufino descreve assim suas primeiras experiências com a leitura:

 

“Como tantos escritores eu tive alguém, na infância, que me viciou em histórias. Lia gibis escondido, o que, possivelmente, ampliou o seu fascínio. E a Bíblia, ao invés de tomá-la como livro sagrado, tomei-a como livro maravilhoso de histórias, e como manual de estilo. Tudo se passou em Cascadura e Tomás Coelho, subúrbios antigos do Rio, onde se pode ser feliz ou infeliz como em qualquer lugar.”

 

Por suas ideias políticas contrárias à ditadura militar, Joel Rufino morou na Bolívia e foi preso quando retornou ao Brasil, em 1973.

 

Quem quiser mais do ouro de Joel Rufino, aqui fácil no youtube, sem perigo de ser mordiscado por formigas noturnas, nem ter que cercar de pirilampos o brilho que da história encanta:

 

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