Tudo é uma questão de aprendizagem ou desaprendizagem.

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Eu aprendi a gostar de poesia.

O pouco contato que tive na infância não me permitiu enxergar o que é a poesia e me limitou a achar que eram várias palavras juntas que não tinham sentido algum e algumas vezes rimavam, neste caso, para mim eram as melhores! Era mais ou menos uma pegadinha do poeta: eu tinha certeza que por trás ele estava rindo de todos nós que não entendíamos ou fingíamos entender.  Eu ainda não sabia que “a poesia sugere várias coisas além daquilo que está sendo dito, ou melhor, dizer o indizível”, como nos explica Affonso Romano de Sant’Anna ou o que Rubem Braga, escreve muito bem em sua crônica “O mistério da poesia”:  “… (a poesia) dá um sentido solene e alto às palavras de todo dia” ou citando novamente Sant’Anna: Há uma musicalidade no texto que alicia, seduz o leitor.

Há quase três anos, procurei uma oficina de escrita e fui parar na Oficina Gato-de-Máscara da poeta Regina Gulla.

Na aula “teste” ela me explicou que iríamos começar pela poesia, que era a mãe da linguagem, que seria como um desabrochar, ou melhor seria um abrir de porteira para libertar as palavras presas pela nossa auto crítica.  Fiquei meio tensa, mas sou teimosa e topei o desafio.  Ela, então, me deu uma frase aleatória e pediu que eu continuasse a escrever durante uns dez minutos sem parar para pensar. Quando o lado esquerdo do meu cérebro se atrevia a arranjar sentidos para o texto, a Regina soltava uma palavra qualquer a qual eu deveria inserir na minha escrita.  O lado direito do cérebro agradecia, afinal depois de tantos anos parado estava começando um processo de tirar a ferrugem.  No final de tudo, para piorar a situação, eu não podia ler para ela o que havia escrito. Mas como não????  E o meu ego???  Foi uma aula de desaprendizagem.  Desaprendi tanta coisa….

Este exercício se chama Escrita sem Rumo, e é para o escritor como o Desenho Cego é para o desenhista, que o meu professor Dalton de Lucca muito sabiamente explica que é a hora de apertarmoso o botão do “SDQ” (“Seja o que Deus Quiser”).  E assim comecei o meu processo de desaprender tudo o que havia aprendido.

Ainda temerosa, e com todos os meus egos e superegos ligados escrevi um dia à Regina, falando que estava desestimulada pois não estava feliz com meus textos, etc, etc.  Esperei chegar a resposta óbvia a que a minha mensagem intencionava.  Aquela do tipo “imagine Karin, tudo vai dar certo, você tem futuro”.  Mas o que veio não estava na minha programação, foi algo assim “este é um problema seu, eu não estou aqui para lidar com o ego de ninguém e sim para brincar com as palavras”.

Aí, naquele momento, eu voei e joguei com as palavras e com o botão “SDQ” sempre ligado; e me apaixonei, pela Regina, pela escrita e pela poesia.

Agradecimento especial à Regina Gulla e ao Dalton De Lucca.

* Desenho a nanquim feito por mim na oficina do Dalton. Era para ser um gato mas ficou com cara de cachorro, é que eu estava com o botão SDQ no módulo “ON”.

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