Dormentes – Uma tarde no trem da Central, por Marcos Cesar*

Ainda sou do tempo do trem da Central, embora naquele bem antigo, eu só tenha andado uma única vez, indo a Japeri, à casa de uma amiga de minha mãe. Lembro que foi uma aventura, o trem corria demais para minha percepção de criança, aos seis ou sete anos achei o máximo aquele barulho, ta-ta, ta-ta, as rodas batendo ritmadas nos dormentes dos trilhos.

Mais de trinta anos depois, eis que tenho de ir a Madureira e, em tempos de trânsito caótico e tendo eu, na medida do possível, abdicado de andar de carro em dias úteis, escolhi o trem, orientado por um colega sobre a melhor forma de chegar ao destino.

Peguei o Metrô na Carioca, eram 14h, um calorzinho morno de primavera, não havia lugares vagos, mas o vagão ainda mantinha o friozinho gostoso do ar condicionado. E, como sempre, as pessoas absortas, eu mesmo ouvindo as músicas que, relutante, pus no celular, porque nem sempre é possível ouvir rádio nos ônibus e no próprio metrô.

Chegando à Central do Brasil, como eu não tinha tanta pressa, consultei o relógio digital da gare e marcava 14h12min, bem rápido o trajeto. O destino, Rua Dagmar da Fonseca, coração de Madureira, mas a primeira dificuldade era saber qual trem pegar.

Já fui sabendo que deveria pegar o “semi-direto”, que só para na Central, em Silva Freire, Engenho de Dentro, Cascadura e Madureira, mas qual deles era o dito? Má vontade das pessoas de colete verde, o funcionário deu um muxoxo** quando perguntei qual era o trem mais rápido até Madureira, apontando vagamente a plataforma. Corri, mas enquanto o alto-falante dizia que o trem com destino a Japeri partiria em “alguns instantes”, eu quase fui guilhotinado pela porta. Alguns eram bem poucos, descobri, quase da pior forma.

Voltei à plataforma principal, desta vez outra funcionária salvou a categoria e foi bem educada, apontou-me plataforma com número e letra.

Peguei um dos trens velhos, ar-condicionado mal e mal, e aí, mais dormentes… eram os passageiros, aquela modorra da tarde carioca, o mesmo calorzinho que eu achei morno, agora incomodava, com as janelas fechadas.

O ta-ta ta-ta das rodas na linha férrea não deixava eu ouvir bem ao rádio, mas ouvi muito bem o berro do vendedor – água, cerveja, coca, água, cerveja, coca – e ele com um isopor maior que ele próprio, arrastando pelo trem. Como ele faria isso com o trem lotado, no horário do rush?

E vieram mais vendedores, brotando não sei de onde, brinquedos, um menino sonolento despertou com um dispositivo que não entendi bem, mas que pulava, piscava e zunia, acho que um pião moderno, a mãe ignorou o choramingo com um tapa no pé do ouvido, “me deixa dormir, moleque, tô morta” e o que era brinquedo virou um choro contido, já com medo de outro tabefe.

Outro vendedor deve ter vindo do teto da composição e praticamente se materializou ao meu lado, com um alto-falante, microfone preso à cabeça. Vendia fones de ouvido, de todas as cores, a cinco pratas. Vendeu uns cinco só no vagão em que eu estava, e o trem agora sacolejava, ta-ta, ta-ta, o calor agora sufocava, janelas fechadas e o ar condicionado a abafar e esquentar…

O alto-falante grunhiu qualquer coisa, eu perguntei ao rapaz em pé na porta, bem na hora que outra composição passou em sentido contrário e, claro, ele não entendeu nada. Ainda era Cascadura, disse um baixolinha coroa, bem educado, anos de trem, “se Engenho de Dentro foi para esse lado, Madureira é do outro” e batata, minutos depois cheguei ao meu destino.

O calor abafado de Madureira rescendia a algo diferente, nunca fui ao Cairo, mas acho que o Cairo deve ter aquele calor e eu nem estava de terno. O carioca é diferente para dar orientação, aponta ali, aqui, e cheguei à Dagmar da Fonseca, fiz o que tive de fazer e, na volta, peguei o trem novo.

Outro mundo… um trem estalando de novo, ar perfeito, disposição das cadeiras não tão ordenada e mais vendedores, o trem interminável. Mas o mesmo sacolejo, parece um passista meneando na Sapucaí, no ritmo dos dormentes, ta-ta, ta-ta, um surdo de marcação do ritmo das pessoas.

Chegamos à Central, a plataforma apinhada, se não salto logo, volto para Japeri sem conseguir sair… saio andando devagar, ainda do acesso ao metrô, ouço pela última vez os dormentes, eu mesmo assim vou ficando, ao longe, ta-ta, ta-ta…

* Marcos Cesar é cronista advogado carioca, conhece bem o sufoco do terno e gravata, aprecia uma bela salada de rúcula com tomates cereja e tem fluência em “mineirês”. Amigo querido de longa data, vem dar um dedo de sua prosa aqui no Toda Hora Tem História.

** muxoxo: resmungada, grunhido.

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