Vovó Dragão

O que é um dragão? Quem respondeu que é um ser imenso com asas assustadoras que solta fogo pela boca e devora princesas indefesas vestidas em longo cetim branco, devo dizer: o senhor (a senhora) está redondamente enganado, da escama à cauda, completamente equivocado.

Um dragão é um monte de histórias. Um dragão é pura magia recheada com edredom de plumas.

Assim mesmo respondeu Thais Linhares em seu livro “Vovó Dragão”. Se não foi assim que ela disse, foi assim que eu li…

Uma princesinha que começa a história com uma caçada em que ela é a pequena presa perseguida e as pernas já quase se desmancham como “pudim” em boca de faminto.

– Parece que não chegaremos à próxima página, sim?

Sim, sim, ela a fugir com olhos atentos aos movimentos alheios, até adentrar seu lugar secreto, escuro. No meio da escuridão, a princesa chama o nome da avó para que ela acoberte sua fuga…

Avós são tão diferentes das mamães. Lição número um: avós não dizem primeiro o não para depois pensar se poderia ser sim.

A avó acolhe a princesa muito bem, é claro. Mas não se trata de uma avó como outra qualquer, falamos da Vovó Dragão: verde, grande e fofa, com livro nas mãos, mergulhada em cobertas.

Uma história para fazer virar pequena a princesa, outra história para fazer agigantar em proporções colossais. Uma história de correr para toca sem fundo, uma história para mergulhar o Reino das Águas Claras. Uma história para voar ao lado do Barão, outra história para escamas submarinas. Uma história de balão ao redor do mundo, ainda uma história dentro de um mesmo poço.

– De onde vieram tantas histórias?

O toque na porta faz lembrar que não podemos nos esconder para sempre…

Lição número dois: avós nunca dizem não para nossas mães.

– Chegou a hora de dormir.

– Só mais uma história.

Um beijo e um abraço, a página do livro marcada para amanhã. Na lição número três podemos deixar de dizer o que é óbvio conhecimento: as avós sabem nos convencer daquilo que devemos fazer com pouquíssimos gestos.

Na minha terapia de contar histórias, prefiro aquelas que conduzem nossas lembranças nas nossas próprias histórias, a razão é que eu me autoclinico com histórias: compreendo minhas pequenas e grandes angústias com as angústias dos personagens, ganho forças para batalhas com as energias dos meus protagonistas prediletos, torno menores que ratos os meus inimigos porque eu já aprendi que eles não conseguem chegar inteiros até o final da narrativa. É o poder medicinal da literatura. Alguém pode até rir de uma teoria tão absurda, mas se não fossem as saídas absurdas que nos fazem rir o que seríamos nós?

As histórias nos levam ao lugar do “pode ser” e é lá que a gente aprende a reinventar tudo aquilo que “não deveria ser assim”.

Misturar histórias com vovó e dragão é como fazer biscoito crocante com cobertura de glacê de limão: difícil achar quem não goste. Mesmo quem não teve uma avó para contar histórias (eu tive), mesmo assim, as avós são um patrimônio antropológico da humanidade: quem não teve uma, pode inventar aquela que lhe pareça ideal!

Um conto dedicado aos pequenos fugitivos que se camuflam entre a poltrona e a estante de livros, um livro dedicado às pessoas que não resistem quando são tomados pelos olhinhos da criança a dizer:

– Posso deitar aqui contigo?

Será que eu ainda preciso perguntar por que contar histórias?

Em tempo, “Vovó Dragão”, texto e imagens de Thais Linhares, Editora Nova Fronteira.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s