De carona, com nitro, de Luís Dill

Um diário de horas que observa a rotina de vários personagens, desconhecidos entre si, mas que, em algum momento, serão tragicamente determinantes uns para os outros. Um livro complexo de certa forma, para os leitores acostumados a seguir a vida de um protagonista, pois o autor vê a teia de informações e navega nas diversas histórias até chegar ao fato principal.

Despreocupada em admitir a relevância tratada pela obra de Luís Dill em “De Carona, com Nitro”, porque ela é óbvia face ao fato principal, congruente entre a vida dos diversos personagens envolvidos na tragédia causada pelo binômio entorpecente e velocidade, abraço a narrativa como uma possibilidade de enxergarmos as relações humanas nas suas pluralidades e intersecções.

Luís Dill se apropria dos sentimentos que cercam nosso cotidiano e tece essa fina teia da vida, para conseguir, ao fim, demonstrar ligações sempre existentes entre nós, os desconhecidos.

Bruno, Franciele, Giancarlo, Alcebíades, Fábio, Doralice, Fernanda, Isadora, Ricardo, Miguel, Gabriel, Andressa, Nicole, Djalma: nenhum a imaginar o impacto que sua vida gera na vida daquele que ele nem conhece, e todos os impactos que suas vidas refletem sobre nós. Uns adolescentes, algumas crianças, outros adultos. Angústias com a aceitação do próprio corpo, desafios da vida desprovida de recursos financeiros, a notícia de uma gravidez não planejada, o uso do álcool e entorpecentes para reforçar a juventude.

Difícil entender do que se alimenta a mente humana, mas é um caminho rico desenvolver o olhar atento às diversas formas de vida, observando como as pessoas reagem aos seus medos, anseios, desafios e até entusiasmos.

O livro “De carona, com nitro”, narrativa de Luís Dill, não pretende desenvolver uma lição de moral, não sugere respostas, nem soluções, não julga e não condena, apenas conta uma histórias de histórias que se entrelaçam num ponto de desagrado, num lugar onde não queriam nunca ter estado. Aguça nossa percepção da realidade sim, porque a ficção nos transporta para aquele cotidiano dos personagens que tantas vezes se assemelha ao nosso dia a dia.

Ao final do livro, algumas informações úteis para os jovens leitores reserva a atenção sem ser piegas ou demasiadamente pedagógico. É um adendo para que motoristas compreendam que suas decisões podem salvar vidas.

O livro faz parte da coleção “papo-cabeça” de literatura juvenil da Editora Artes e Ofícios, de Porto Alegre, todos com projeto gráfico audacioso de Joãocaré, mix de fotografia, pintura, diversidade tipográfica. 

O projeto de design do livro consegue alimentar e prender nossos olhos durante a leitura (falo por mim, comecei a ler e fui até a última página sem parada).

A coleção “papo-cabeça” está longe de ser um sermão para jovens leitores. A coisa é bem outra. A narrativa sem dúvida é de primeiríssima e o projeto para a coleção, envolvendo ilustração e design gráfico, aproxima a conversa do público alvo porque ousa com todos os elementos, mantendo, sobretudo, a boa estética na leitura.

Os outros dois títulos que compõem a coleção com projeto gráfico de Joãocaré: “A primeira vez que vi meu pai”, texto de Márcia Leite; “O outro passo da dança”, de Caio Ritter.

Eu gostei. E muito.

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