Tudo depende

Maria se chama assim… Porém, gostaria que se chamasse Olivia.

Quando Maria diz a seu papai que gostaria de se chamar Olivia, o papai responde que certamente se ela se chamasse Olivia gostaria de se chamar Maria.

A discussão se passa até que o papai diga: “tudo depende”.

Porque afinal de contas, tudo depende mesmo. Quando não encontramos relações múltiplas entre as coisas, é porque algo vai mal: nas coisas? Não, não, o equívoco é da nossa percepção.

Quando Maria pisa num chicle e tem a sola do seu sapato preferido colado com aquela coisa grudenta tão difícil de livrar, Maria pensa o quanto odeia os chicles e as pessoas que atiram chicles no chão, também as pessoas que fabricam os chicles. Depois de tanto se irritar com o chicle colado na sola do sapato, Maria pensa nas bolas que sabe fazer com a goma de mascar e como é prazeroso sentir o gostinho doce na boca.

De verdade, Maria não odeia os chicles.

No entanto, há algo pior do que chicle nos sapatos, pois eles podem se grudar aos cabelos. Eu mesma já tive que cortar um pouco de cabelo por causa de uma bola de chicle que estourou e se grudou ao meu cabelo. Não foi nada bom e eu odiei os chicles da mesma forma que odiei ter soprado aquela bola demasiadamente grande até que explodisse no meu cabelo.

2013-07-07 11.29.03
ilustração de Margarita Sada

Minutos antes eu era toda felicidade com a bola gigantesca. Então, tudo depende.

Se tudo depende, talvez seja apropriado pensar de cabeça pra baixo, sentar do outro lado do sofá, olhar a janela de fora para dentro, imaginar que é o ovo da panela a ferver, refletir como pensa o vizinho e o amigo do vizinho.

Há um provérbio indígena que não sei ao certo e que pode estar mesmo errada minha interpretação (mas não importa, já que tudo depende e minha interpretação vem a calhar aqui no meio do texto), que diz: só saberás o que sente o outro quando andares muitas léguas com seus sapatos.

Pois, tudo depende.

Pensar no que se passa é ver o mundo de diferentes maneiras e ver o mundo de diversas maneiras é evitar irritação com as coisas que se passam ao nosso redor.

Tão difícil.

Bom, tudo depende. Se irritado estamos não pensamos bem, dizemos bobagens, fazemos besteiras e pronto: estragamos a cena toda.

Mais difícil do que aprender a não se irritar, talvez seja consertar as consequências da irritação. Tudo depende.

Taí a beleza da amálgama humana, a complexidade de sentimentos, pensamentos e percepções. De certo que nessa onda, pingo é letra, os tês se cortam antes da hora muitas vezes e a maré seca. Loucuras, devaneios, sorrisos e lágrimas. O certo nunca é certo o bastante, mas também não é errado. Do filosofar em botecos tomando fanta laranja com a garotada, podemos deixar seguro que “tudo depende”.

Em tempo a dica para somar um livro bom na nossa biblioteca: “Tudo depende”, de José Manuel Mateo, ilustrado maravilhosamente por Margarita Sada, da editora Callis de São Paulo.

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