Retratos-poemas

Quem disse que um verso é pouco, nunca leu poesia. Um verso pode conter muito mundo dentro, um punhado de estrelas, uma infinidade de sentimentos. Um verso pode ser toda poesia que precisamos para respirar.

Quando alguém me diz que não gosta de poesia, que não lê poesia, que não sabe nada disso e que acha chato, complicado, confuso, eu sempre respondo que basta um verso.

Um verso e já temos um protesto.

Um verso e já tecemos um teto.

Um verso e já se faz reverso.

A vida, afinal, cabe numa lágrima, num punhado de sal, numa bolinha de gude.

Na penteadeira de minha mãe, aquela penteadeira laqueada imitando os veios do jacarandá, tinha uma caixinha de música com uma pequena bailarina. Não lembro bem qual a canção que tocava naquela caixinha de música, nem posso recordar os detalhes exatos da bailarina. Mas havia uma estrela vermelha riscada no espelho da caixinha onde a bailarina dançava perfeitamente. A estrela se movia de dentro para fora. Crescendo a estrela, a bailarina alcançava a borda do espelho.

Minha mãe está ainda por perto e eu já não sou a menina que sentava à penteadeira para ter os cabelos ajeitados. Mas a estrela permaneceu gravada em mim, ora diminuta, ora gigantesca. Dos pés da bailarina ao céu da minha infância.

Um verso faz um tempo.

Semana passada, depois de uma conversa amigável com o poeta Leo Cunha, fui surpreendida com a chegada de um pesado pacote postal. Entre os livros, todos gravados com dedicatórias, um pequeno relicário de retratos familiares: Haicais para filhos e pais.

Alguns versos podem ser colhidos aleatoriamente para iluminar os retratos que o poeta colheu, registrou com palavras e desenhou um sentimento perene:

“Mãe coruja ouviu

E mandou emoldurar

O primeiro piu.”

Não fosse assim, não era a mãe coruja. O primeiro piu, o primeiro olhar, o primeiro suspirar. Quando mães, mulheres se tornam perfeitas colecionadoras de minúcias.

Talvez, na mesma sala, o homem é menino com o menino que ele balança:

“O pai nina o filho.

Cada verso do acalanto

Belisca a memória.”

Não fosse assim, não era o homem pai. Os versos gingam naquele corpo pesado, faz amansar a voz a hora do sono. Quando pais, homens se tornam meninos brincantes.

Numa leitura delicada dos poemas de Leo Cunha, percebemos a família vislumbrada pelos olhos do poeta e nos encantamos de um encantamento da nossa memória, nossos retratos traduzidos com pequenas palavras colhidas do fundo do baú.

Fiz que fiz, para compartilhar mais dos poemas de Leo, ouvi Cartola cantando “O mundo é um moinho”, canção que ele escreveu para a filha quando ela anunciou que iria sair de casa; dura a sina de criar o broto para que ele amadureça, cresça e parta pelo mundão, ganhando seu próprio espaço.

Por fim, ainda que não me coubesse fazer haicai para o livro do Leo, veio uma vontade de contrapor linhas lá para a primeira página, quando começa o ventre a se preencher de vida.

Essa minha tentativa completamente mediana de dizer algo em verso, numa forma desconhecida para mim como é o haicai, é só para reforçar como me tocou o livro do amigo poeta, Leo Cunha, também para dizer que um único verso pode carregar um mundo todo, para lembrar que retratos também se podem desenhar com palavras.

De minha família eu mesma clico um momento, assim:

O telefone alardeou:

Não somos os mesmos,

Já nos espera o filho.

Agucem os sentidos com Leo Cunha, no pequeno álbum de família: “Haicais para filhos e pais”, delicadamente ilustrado por Salmo Dansa, editado pela Galerinha Record.

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