Os Invisíveis

Ainda ontem eu dizia a Dona Lena para não entrar naquela empreitada. Muito arriscado assinar como responsável legal quando já existem problemas imensos, dívidas com órgãos públicos, folha de pagamento para honrar todo mês, mas, principalmente, quarenta bocas para alimentar, quarenta camas para cuidar, quarenta trocas de roupa na manhã que podem ser repetir na tarde, também quando noite: diariamente.

Dona Lena me respondeu: – Se eu não me comprometer, quem irá? Alguém tem que cuidar deles, assumir a responsabilidade, porque eles não podem ser despejados… Além disso, a situação só vai piorar se eu não olhar por eles.

Ela estava coberta de razão porque ela era pura emoção. Eu tinha medo de me sentir assim tão próxima das necessidades do mundo. Comprometida, Dona Lena comprometeu todos da família para que ajudassem da maneira que pudessem. Era feito de cristal aquele coração, Dona Lena era capaz de ver os invisíveis.

Algumas pessoas têm olhos de ver, a exata perfeição.

Conta uma história que aquele menino se levanta e vai tomar seu café da manhã pensando como acordou cedo o moço da padaria. Logo, o menino sai à rua, ele tem um superpoder, ele cumprimenta o moço que arrasta a caçamba nos ombros como se fosse movido a motor, segue longo caminho recolhendo: garrafas de vidro, garrafas de plástico, latinhas de alumínio, placas de papelão. Parece tão pesado.

Quando o menino lembra o cheiro ruim que mora na lata do lixo, ele lembra também dos homens que correm pela noite recolhendo todos os sacos para alimentar o grande caminhão mal cheiroso…

Em tardes ensolaradas, em tardes frias, passa a mulher varrendo cada cantinho da sarjeta. Calada e solitária, a mulher passa todos os dias.

No farol, algumas crianças fazem malabares. O menino consegue ver aquelas crianças, com seu superpoder, as mãos sujas, as calças rotas, os pés descalços; algumas delas são menores do que ele.

Quando o menino tenta abrir a janela do carro, o pai briga com ele, diz que é perigoso. O pai tem medo que os invisíveis possam se tornar visíveis. A mãe diz que protege o menino, por isso grita, dá bronca, pede que ele aproveite a viagem sem abrir o vidro.

O menino olha nos olhos das crianças que fazem malabares no farol. Parece que eles foram esquecidos ali pela mãe ou pelo pai.

O superpoder do menino revela a mão estendida, os olhos cansados, os sonhos que não se sonham porque não são possíveis neste mundo.

Debaixo do viaduto, um invisível segura um bebê, um invisível alimenta um cão, um invisível procura “um” no fundo da panela.

Dentro da casa, a avó que não fala mais coisa com coisa fica sentada na poltrona e a família toda passa por ela como se a avó fosse invisível.

Até mesmo o menino da história se torna invisível quando pergunta “quem quer brincar comigo?”- e ninguém responde.

Quando escuto sua hora, olhando para os olhos do menino, desejo que ele nunca torne as pessoas invisíveis a sua volta. Desejo que o menino continue vivendo com seu superpoder. Desejo que o menino cresça resistente como Dona Lena, mulher que abraçou a responsabilidade de cuidar de uma Casa Asilar onde pessoas antes invisíveis se tornaram visíveis e puderam comemorar sonhos possíveis neste mundo.

Polir os olhos é condição necessária para quem deseja ter coração de sentir.

Invisivelmente visível neste texto, ficam imagens e palavras da obra “Os Invisíveis”, de Tino Freitas e Renato Moriconi, edição da Casa da Palavra, um livro para criar superpoderes, um livro para dar vontade de abraçar os autores e agradecer.

2013-05-26 09.53.38

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