A arca do Tesouro

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Maria é uma criança que anseia o fim do tempo frio, o tempo em que as pessoas não têm tempo para nada. Estão todos estressados, correndo com horários, sem tempo para falar, contar histórias, conversar sobre a vida. Os dias são curtos, as manhãs gélidas e os corações de inverno. Maria quer companhia e atenção; Maria quer ser criança. A menina sempre pede um gato, mas o pai diz que seria um absurdo atender ao pedido da miúda. A avó, que nunca tem voz de inverno, dá à Maria uma caixa de tampa azul, onde ela poderá guardar seus tesouros. Maria não sabe onde encontrar tesouros, além de saber que seria muito caro comprar tesouros, pois sua mãe sempre diz que tudo anda muito caro. A avó explica para Maria que a arca é para guardar os tesouros do nosso cotidiano, aqueles que nem percebemos a importância, as palavras que não ditas, as palavras que gostaríamos de ouvir, as palavras compridas, bonitas, feias, as palavras inventadas. Maria transforma a caixa de tampa azul em sua arca de tesouros, anda com ela por todos os cantos, todos os dias. Um dia a arca some. Maria não pode explicar o que tem dentro da caixa porque os tesouros não servem para nada, só servem para trazer felicidade para ela. Maria é surpreendida pelo pai que volta para casa mais cedo do que de costume, com a caixa e uma surpresa…

A história “A Arca do Tesouro”, escrita pela escritora portuguesa Alice Vieira, remexe na velha questão: qual o valor das palavras.

De minhas memórias inundadas por canções açucaradas, recordo Roberto Carlos, em um dos LP’s ouvido tantas vezes ao lado da minha mãe (fá incondicional do cantor), naquele refrão que ensina que “palavras são palavras e a gente nem percebe o que disse sem querer e o que deixou pra depois…”. Não diferente da minha mãe, eu também me criava naquela calda romântica de versos pensando como é dura a vida de quem recebe só palavras estúpidas, como é triste a vida de quem não tem nenhuma palavra para acalentar, ou, quanto é desesperador faltar palavras quando devemos explicar algo para alguém.

Da amizade que nasceu entre mim e Alice Vieira, o afeto se deu por palavras trocadas, mas, principalmente, pelo compromisso de dizer só o que se quer dizer, pela leveza das horas em que até os silêncios são compartilhados numa linguagem acolhedora.

Alice me ensinou uma das coisas mais importantes que eu já tomei nota: amigo não empata amigo. Posso passar a tarde toda conversando sobre esta frase, notadamente bem colocada ao sentido verdadeiro da amizade. Palavras que guardo na minha arca, no meu baú de tesouros.

Por isso e por mais, fiz uma canção, uma homenagem à escritora Alice Vieira e à amiga que tenho e com quem brinco neste quintal de mundo. A canção “Ali, Alice”  – http://www.youtube.com/watch?v=s-uZUN0Xbl0 – é uma ciranda que mistura obras da escritora, momentos doces e a tal ponte invisível que liga São Paulo a Lisboa, sem escalas!

Parceiro na melodia da canção, Joel Costa Mar, luso-brasileiro assim como eu, veio festejar comigo. A história “A Arca do Tesouro”, de Alice Vieira, inspirou canções para a personagem Maria e seu desejo secreto; os dias em que uma cor lilás continha todas as palavras de amor; a chegada de um tempo em que não se escutem mais as vozes duras e frias de inverno.

A vitrola girando. A música colorindo as palavras que brincam em livros e que se desdobram em conversas. Conversas de prosadores, contadores de histórias.

Afinal, contar de histórias é isso: voltar ao começo, fazer a ciranda ao redor de um velho ancião, de uma avó, da voz que repete a magia das palavras.

Sábado esperamos por vocês no SESC Santo André, às 15 horas, para contar história, compartilhar canções e encher os corações com palavras que esperam ansiosas para sair de dentro da arca do tesouro. Esta contação de história faz parte da exposição “Livros Viajantes”, com curadoria dos poetas e escritores: Selma Maria Kuasne e José Santos.

 

Serviço:

06 de abril – 15 horas

Contação de História – “A Arca do Tesouro no Mar de Portugal”

Com Penélope Martins e Joel Costa Mar

SESC Santo André

Rua Tamarutaca, 302,

Vila Guiomar, Santo André.

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