Horas Claras

“Quando Clara entrou no apartamento, na sua primeira visita, não ousou se aproximar da janela da sala que estava aberta. Seus pais conversavam na cozinha com o zelador, que relatava algum problema na torneira da pia e cochichava algo como se quisesse guardar algum segredo da menina, que ficou na sala, parada a três passos da janela, sem coragem de se aproximar dela, mas deixando-se banhar com a brisa que invadia aquele apartamento vazio, com uma ou outra barata morta no chão, pequenas teias de aranhas abandonadas nos cantos do teto e um bico de luz sem lâmpada.”

Uma moradora nova, um pequeno círculo de amigos inseparáveis, uma saída tímida do elevador, uns olhares inquietos. Um edifício onde um andar inteiro abriga uma biblioteca e o andar imediatamente superior não existe (irresistível associar a existência de um andar de livros à inexistência física do outro andar), um dono cego, um cão. Uma escola nova para ela, umas travessias pelas calçadas: a constatação absurda de que as sombras sumiram.

As Horas Claras, novo romance juvenil para todas as idades, de Alonso Alvarez, não se limita a uma temática que possa interessar aos leitores. O texto flui com integração de todos os elementos interessantes às relações humanas sem deixar escapar o bom humor e, com expressões poéticas, incluir pequenas delicadezas para as descrições das cenas.

Clara é a mais nova moradora deste edifício que compõe o imaginário do autor em diversos romances, muitos ainda aguardando o lançamento.

Então, antes de falar de Clara e das “As Horas Claras”, imprescindível a citação de “O Encanto da Lua Nova”, primeira aparição do edifício com biblioteca labiríntica e um 11º andar que não existe, mas que abriga personagens imaginários como a prisioneira feiticeira Annabel em companhia dos poetas Poe, Rimbaud, Pessoa e Dickinson.

Em “As Horas Claras”, com o mistério do desaparecimento das sombras, novos seres tomam o espaço inexistente do 11º andar com proficiência científica de Galileu e Newton, se é que me entendem (claro, às claras que sim).

A biblioteca pulsante do décimo andar continuará lá, nos próximos três romances que ainda estão por vir, Alonso Alvarez já me avisou, e eu não resisti perguntar “por que o andar inexistente é o 11º?”, curiosidade mística, eu admito. Numa composição a partir das infinitas noites de Sherazade, as 1001, os romances ganharam além a fantástica biblioteca labiríntica um 11º andar onde o improvável faz nascer todo tipo de possibilidade.

Adorei. Mais ainda com latiu Lupicínio. Poxa, eu sempre me perco nas histórias dentro da história e essa de chamar Lupicínio a um cão logo me fez pensar nas canções que ele uiva para a lua. Lindas cenas do leitor que se mistura ao imaginário do escritor.

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“As Horas Claras” é uma aventura com sombras de dúvida onde as sombras, em vez de esconder, revelam muitas coisas: encontros, atrações, gravidades, acasos, paixões e poesias. Doença de curiosidade.

Assim mesmo são os saudáveis doentes curiosos. Curiosidade e beleza. A escrita de Alonso deixa no tempo a sutileza. Encanta.

“Fechou os olhos.

Mas, de repente, na escuridão dos olhos fechados, viu um pequeno sussurro de luz; sim, foi assim que ela sentiu: um sussurro de luz, breve e fugaz.”

Paulista, escritor, artista gráfico e editor. Alonso Alvarez já editou Manoel de Barros e Paulo Leminski, já ganhou Prêmio Jabuti, com Melhor Projeto Editorial e Produção Gráfica. Inovador na década de 80 com o selo artepaubrasil, também a livraria que abria as seis e fechava no último cliente, por volta das cinco da matina. Uma mistura dos acordes de guitarra do Clapton com leituras entusiasmadas e vendas de livros: na Rua 13 de Maio, no Bairro do Bexiga. Alonso tem história a beça.

Em tempo, AS HORAS CLARAS, de Alonso Alvarez, Editora Ficções, São Paulo, disponível para aquisição pelo site http://www.ficcoes.com.br juntamente com o primeiro romance da série O ENCANTO DA LUA NOVA.

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