Maravilhamentos em conversas sobre poesia

 

            Primeiro é preciso abrir as janelas da para deixar o vento arejar, o sol aquecer, o ambiente se tornar propício aos acolhimentos.

            Convido à leitura, ao maravilhamento. Convido ao gosto de olhar o poema das coisas.         O poema que nasce escrito nos muros, o poema do andar apressado da mulher que termina o horário de fábrica e recomeçar a tarefa de casa. O poema do homem que pergunta ao seu filho como passou o dia, o poema do filho que beija seu pai. O poema  você, o poema eu, os olhos, a boca, as memórias de infância, a esperança de um mundo sempre melhor.

            O poema é um desenho riscado na imaginação.

            Converso com o ilustrador Marco Antonio de Godoy, “por que desenhar livros para crianças”, e ele me diz “pela união de várias coisas boas: uma forma belíssima de poder se expressar artisticamente, a oportunidade de interpretar outras ideias e a mais importante, a possibilidade de transportar o pequeno leitor para novas dimensões”; e então, já que Marco abriu a janela para deixar a conversa entrar, eu pergunto além dos olhos dele: “hoje, quando você olha para sua filha, ainda bebê, e pensa na alegria dela quando descobrir o pai contando histórias com desenhos, como você reage?”

            Marco se demora e fica sem resposta, contagiado pelo poema: colocar os olhos de pai nos olhos da filha amada.

            Compreendo com meus olhos de mãe. Afinal é a criança o portal para algo primário, original, algo que se perdeu na vida de adultos, no mundo das regras, horários, interesses…. Tentar criar filhos é antes de tudo (mais que tudo e talvez seja somente isso) recriar a nós mesmos.

            Eu disse que o poema é um desenho, então quais os poetas prediletos de Marco; pergunto e ele diz: “ah, isso é fácil de responder, Baudelaire, Keats, Poe, William Wordsworth”. Não comento com Marco a resposta porque isso estragaria a surpresa, mas minha filha aos seis anos quis que eu lesse para ela “As Flores do Mal”, de Charles Baudelaire. Naquela noite eu comemorei o sono dela que viria mais cedo, mas me enganei com a criança ouvindo atentamente uma hora de poesia. Ao final ela me disse ter gostado muito, só não do título que era mesmo ruim porque flores não são coisas do mal.

            Os meus olhos dentro dos olhos dela tentavam alcançar aquele maravilhamento.

            Gostar de poesia parece impossível. Viver sem poesia é impensável!

           

            Na nossa conversa, Marco Antonio de Godoy ainda me diz:

                                                                                       “Menina, eu acho isso em relação da literatura como um todo. Aliás, ao conhecimento como um todo. É nesse legado de fantasia, beleza e conhecimento que eu quero me minha filha cresça e floresça, não só admirando o que eu faço, mas conseguindo admirar tudo o que existe de belo nesse mundo.” E ele ainda me diz que arte não é algo para uma elite ou algo inacessível para a maioria, “arte é o retrato da vida”. E então eu volto ao princípio.

              É preciso abrir a janela. Olhar as ruas e as gentes. Ver o céu mudar de cor. Ouvir o choro potente de um pequeno recém-nascido. Perceber o desenhar deste imenso e interminável poema.

               Por fim, Marco diz pra mim que é “péssimo de improviso”, e eu devo discordar, porque ele é ótimo de conversa e conversa, como a gente sabe, é puro improviso.

               Imagem

             Depois do meu “por fim”, um último suspiro na coluna de hoje com gosto de conversa que não acaba nunca, Marco de Godoy é ilustrador, já passa a soma de uma quinzena de livros desenhados por ele, entre os quais “Giros, contos de encantar”, texto de Mila Behrendt, as biografias de Paulo Freire e de Camara Cascudo, obras publicadas pela Editora Cortez. Outro livro especial para Marco é “A Menina que ficou invisível”, texto de Valéria Portella, edição especial do Lar Anne Frank e Editora Literallis.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s