A árvore redescoberta, com a presença de André Ricardo Aguiar

Falar do passado acaba por realçar o traço melancólico, quem sabe o peso das coisas que não foram como deveriam ter sido, chorar as perdas daqueles que gostaríamos de ainda ter conosco. Um gosto de posse despossuída tem o passado. Triste sina do ser humano, querer se apropriar de tudo e guardar numa gaveta.
De certa forma fiz isto com os livros que li. Apropriações. Apropriei-me dos cheiros, dos passeios à beira mar, das camisas listradas, das noites embaladas com barulho doce de máquina de escrever. Apropriei-me dos nomes estranhos, das festas gigantescas, dos silêncios que habitam montanhas. Apropriei-me, mas não pude guardar para mim porque era muito grande e não cabia na gaveta. Resolvi então deixar no baú sem fundo, misturadas com as histórias de todo mundo.
Nas andanças de um passado recente, fiz ponte São Paulo-Paraíba colorindo prosas com o escritor André Ricardo Aguiar, autor que conversa com crianças e se lança em projetos inusitados para vencer a dificuldade que é formar leitores neste país.
André é um pajé das memórias, um possuidor de nuvens de sonhos, que hoje se apropria desta coluna para alimentar o grande baú sem fundo das histórias que pertencem a todos nós.

“A Neide Medeiros

Eu costumo dividir minha memória em duas. Uma antiga e uma recente. Começo a falar desta última com certo receio, porque é um tipo que deveria me ajudar no dia a dia, nas coisas práticas. Lembrar onde pus um pente, qual é a data do vencimento da conta dágua, onde deixei a chave de fenda. É como seguir instruções automáticas do viver cotidiano – na verdade, é o próprio viver cotidiano em forma de mecanismo. Esquecer para lembrar: talvez seja um pouco uma pedra menor de Sísifo, fácil de ir rolando.
A outra memória é ancestral e ouso afirmar que ela não me sai tão fácil. Síntese dos primeiros encantamentos, daquela forma de conhecimento misturado com curiosidade que formou a criança e depois, reforçou o adolescente. Daí em diante, qualquer madureza eu devo a esta memória: as primeiras leituras.
Busco sempre a sensação do primeiro livro descoberto. Como se deu? Quero acreditar que foi no escuro da estante proibida do meu pai, meio carcomida pelo uso e pelo cupim. Lembrar-me do primeiro livro tem um gosto especial, como se fôssemos buscar a primeira idéia de imaginação, a ínfima máquina do tempo exilada. Como uma terapia de regressão a vidas passadas. E quando eu puxo o fio, o que me vem? Um menino. Na verdade dois, ambos príncipes dos seus respectivos mundos. De um lado, o engenho, do outro, o asteroide B-612. Enquanto um corria um mundo sem fim feito de pastos, usinas, córregos e rios, o outro se apertava com um baobá lá nos altos siderais. Então tenho certeza que inaugurei minha vida de leituras entre estes dois mundos, entre O Pequeno Príncipe e o Menino de Engenho.
Estes livros como que criaram uma primeira casa rústica, com o material da primeira e hesitante forma de juntar frases, colar imagens, formando um todo de sentido e solidão – esta última, leve, porque a curiosidade é um brinquedo novo cuja leveza não vai antecipar os futuros pesos que esta palavra assumirá ao longo da vida. Além do mais, razão tem Gaston Bachelard em achar que “o isolamento não é assim tão grande e os devaneios mais profundos, particulares, são muitas vezes comunicáveis”.
A biblioteca do meu pai tinha muitos livros, mas não o suficiente para a minha primeira fome. Tive que descobrir em que lugares os livros poderiam se reunir em estado sistemático. Não que uma biblioteca, vista pelos olhos de uma criança, pareça arrumadinha. Para mim foi como ver um monstro dócil, quieto, mas vibrante. Ou um quebra-cabeça cujas peças já estavam formando por dentro, imensas figuras, conjuntos de figuras, constelações de imagens e enredos e vozes.
Esta herança é a mais terna de que lembro, uma experiência tanto de vida como de leitura onde as fronteiras parecem se misturar. Tempos depois, desdobrando o mapa da memória, é aí onde me encontro. E que define o que sou.”

nota: confira a literatura de André Ricardo Aguiar. neste link, uma publicação para jovens pela editora Rocco: http://www.rocco.com.br/shopping/exibirlivro.asp?Livro_ID=9788532521965

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s