Conviver

Quando conheci Dona Antônia eu já era mãe do meu primeiro filho. Dona Antônia tinha dois grandinhos, uma menina em final de adolescência que até já trabalhava e era super participativa em casa, e um garotão que ia bem no colégio e não tinha as folgas habituais dos meninos de sua idade. Dona Antônia trabalha como servente na Universidade e o marido é excelente pedreiro. O motivo do nosso encontro foi a adoção de três irmãos, priminhos de terceiro grau da família, que estavam institucionalizados pela terceira vez.

Os irmãos tinham pouca idade, o mais velho seis anos, a do meio quatro e a menorzinha ainda com dois anos. Todos eles tinham sequelas de abandono e maus tratos. Cicatrizes, olhos sem brilho, pouca fala ou nenhuma. Aninhavam-se por cima da gente implorando afagos.

Conheci Dona Antônia por intermédio de um amigo de curso, um amigo querido que já estava completamente envolvido no auxílio daquela família.

Tornei-me advogada de Dona Antônia e tive o dia mais feliz da profissão quando saiu a sentença concedendo a adoção dos três irmãos. Já não era uma família de dois filhos, seriam cinco a partir daquele momento, os cinco filhos amados com olhos derramando brilho e doçura, um irmão amparando o outro, e os pais, pessoas simples e muitíssimos dispostas ao convívio.

O que faz uma família? Qual o elemento essencial para que seja reconhecido com este status um agrupamento de pessoas?

Afeto. Afeto. Afeto. Afeto. Afeto… Uma soma infinita de pequenos gestos diários que levam todos ao desenvolvimento pleno, ao alcance de algo maior do que ser homem e ver satisfeitas suas necessidades de sobrevivência, as condições físicas. O afeto conduz ao humano, traz tolerância e esta por sua vez é caminho para sabedoria. Ou será a própria sabedoria a prática incondicional de afeto?

Família se conquista com afeto.

Eu particularmente acho graça quando um casal se refere ao filho biológico como um filho deles. Oras bolas, senhores, cumpre esclarecer duas coisas no mínimo: não há genética do amor, nem filho algum será propriedade de alguém (mesmo que sejam os pais).

Coisificados assim, os integrantes de uma família precisam de um código de barras, uma marca e um modelo.

E a família?

Outra vez uma amiga me telefonou depois do nascimento do seu primeiro filho e me disse que sabia exatamente o que eu tinha sentido quando conheci meu filho porque ela passou a amar seu próprio filho somente quando pode pegá-lo nos braços, olhar nos olhos dele e reconhecer ali uma pessoa que passaria a conviver com ela. O código genético? No código genético não definia o afeto de relacionar-se com o outro sujeito completamente desconhecido pela mãe: qual seria sua cor preferida, de quais bandas ele seria fã, quanto ele teria de introspectivo ou de efusivo ou de caloroso ou de distante… O código genético não dizia.

O afeto é nossa maior verdade. Não acredito que ele suporte tudo, mas com afeto se aprende a elevar a relação para outro nível, reconhecendo o outro como ele é e aceitando-o sem restrições.

Famílias se formam de diversas formas, mas perpetuam-se e acrescentam outros membros (vindos de origens diversas) com a prática de afeto.

Minha leitura de hoje é olhar a vida lá fora, tantas e tantas pessoas diferentes, umas até com mesmo tipo sanguíneo que o meu, outras que adoram o mesmo poeta que eu, todas com a mesma necessidade de afeto (mesmo as que negam terminantemente, mesmo as que não sabem dar afeto).

Ah, e para não dizer que não falei das flores e dos LIVROS, vale procurar o livro ilustrado “Conta de novo a história da noite em que eu nasci”, de Jamie Lee Curtis e Laura Cornell, tradução Clo Franklin, Editora Salamandra, e não falo mais nada!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ah, só mais uma coisinha: esqueça o presente na loja, um abraço afetuoso pode começar a mudar definitivamente as coisas entre vocês.

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