trocando em miúdos com Alice Vieira

Por que não chamar as crianças de miúdos já que são elas as mais pequeninas?

Os dias parecem calmos e ensolarados junto da amiga Alice Vieira. Passo a explicar os adjetivos que só fazem atrapalhar todo o texto, mas eu não deixaria de fazer esta piada com a amiga.

Pois, calmos os dias porque as conversas se estendem sem percepção de tempo, esquecidas de qualquer cansaço. Curiosa, pergunto disso e daquilo o tempo todo. Alice conta a história e satisfaz meu desejo de saber sobre Portugal, Lisboa, nossa língua. Quanto ao efeito ensolarado da amizade, há fartura de risos e abraços com Alice Vieira e isto explica todo calor em Lisboa.

Já com dezoito anos trabalhando como jornalista, para atender ao pedido dos filhos que reclamavam atenção da mãe para algo especialmente feito para eles, Alice Vieira escreveu seu primeiro livro para infância: Rosa, minha irmã Rosa. Como me foi dito pela própria autora, André e Catarina, os filhos que naquela altura eram ainda miúdos, mereceriam dividir os créditos de capa pela criação do texto.

Rosa, minha irmã Rosa, livro esgotado no Brasil, conta a história de Mariana a aguardar a vinda da irmã depois de dez anos convivendo sozinha com os pais. Alice me conta que a história carregou traços da sua relação familiar com os filhos, já que foi escrito “para consumo doméstico”.

O segundo livro, devido ao sucesso de vendas do primeiro, foi solicitado pelo editor da época e resultou na continuação da história, Lote 12, segundo frente, nome que traduz uma típica morada portuguesa; depois, vindo o terceiro livro, que encerra a trilogia, Chocolate à Chuva, que traz no título o apego da menina Mariana à barra de chocolate enquanto aguarda o retorno dos pais para apanhá-la na escola.

Com grande satisfação comento com a amiga autora minha leitura de Os olhos de Ana Marta, obra que aprecio demais a leitura quer pela clareza do texto, quer pelo carisma da protagonista, quer pela coragem de se por à prova.

Em Os olhos de Ana Marta, a menina Marta confessa de pronto sua desconfiança acerca de uma tragédia quando do seu nascimento:

“Trocaram-me de mãe no hospital. Como nos filmes, sabes.”

Trocamos, eu e Alice, a edição brasileira cujo prefácio foi escrito pelo poeta Bartolomeu Campos de Queirós, pela edição portuguesa que partirá daqui comigo.

Nada poderia eu falar sobre este livro depois do texto convincente que ocupa o prefácio da edição brasileira. Diz Bartolomeu Campos de Queirós:

“… as transformações dos personagens nos convidam a um estado mais humano de compreensão. Passamos a ignorar a distância entre o bem e o mal. Há uma justa causa para que o olhar de Ana Marta encontre justificativas para melhor se relacionar… É que todos carregam perdas, lutos, desejos e mais os deslumbramentos com a experiência da posse da própria humanidade. E tudo acontece entre sombras que aos poucos ganham cores por meio da palavra.”.

Afinal, era o que eu havia dito sobre dias calmos e ensolarados ao pé de quem sabe fazer das palavras música de embalar sonhos, compreender a alma, transpor mundos e ir um bocado além de si mesmo.

No mais, há uma paisagem que estende o Tejo brando desenhando um abraço na Cidade de Ulisses; tenho dias de descoberta de literatura e deslumbramento pela pessoa de Alice Vieira.

PS: Sobretudo prefiro pessoas às suas obras, mas neste caso, as obras confirmam o carisma da autora, o que torna ainda mais indispensável procura pela edição brasileira de Os olhos de Ana Marta, de Alice Vieira, publicado pela SM Editores de São Paulo.

 

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